sexta-feira, 14 de março de 2014

O único caminho...


 Em meados de Junho, quase dois meses depois do 25 de Abril, ainda subsistiam muitas dúvidas sobre o caminho a seguir, em especial no Comando-Chefe de Moçambique.  Por mais que os militares do MFA, através das suas comissões, tentassem esclarecer o que estava em causa, a verdade é que se mantinham as incertezas sobre o rumo dos acontecimentos e nem todos interpretavam o Programa do MFA da mesma forma.


Mesmo entre elementos aparentemente esclarecidos, tanto do MFA como de órgãos importantes do Quartel-General, persistiam ideias pouco concordantes com as perspectivas abertas pelo 25 de Abril.  O problema colonial (do ultramar como preferiam) mantinha, para eles, praticamente as mesmas condicionantes que motivaram o 25 de Abril.  Não foi nada fácil fazer-lhes ver que estávamos na fase final de um longo processo de descolonização, e que o nosso capital consistia em fazermos um bom acordo de transferência do poder.


O comunicado nº 2 do Comando de Vila Pery e a respectiva tomada de posição da Comissão Regional do MFA dão uma ideia dos sentimentos que se cruzavam nestes dias vertiginosos, em direcção à única saída que sobrava às autoridades portuguesas – as conversações com a Frelimo.


Vejamos os textos.


“Comunicado nº 2 do Comando Militar de Vila Pery:


1.    As conversações de Lusaca com a Frelimo, com vista a uma paz próxima em Moçambique, foram adiadas possivelmente para fins deste mês.
2.    Na imprensa, o engenheiro Jorge jardim anunciou que dos dias 13 a 15 deste mês iria fazer salientar o seu nome através de acções espectaculares.
3.    Este comando tem conhecimento que forças de reacção (que não são da Frelimo), enquadradas por elementos armados, penetraram durante esta semana na área do distrito de Vila Pery com a missão de alterar a ordem, actuar no meio da população, especialmente operários.
4.    Esta possível actuação só vem prejudicar as negociações com a Frelimo e é atentatória do Programa do Movimento das Forças Armadas, que só entende uma solução política para bem de todos.
5.    As Forças Armadas, atentas a estas manobras que só prejudicam a população, apelam para a colaboração das autoridades, no sentido de serem detectados os agitadores, e informam que agirá, energicamente, na repressão a actos que perturbem a ordem pública.
 

Vila Pery, 12 de Julho de 1974”. 


Este comunicado causou algumas reacções, em especial no QG do Comando-Chefe, mas a Comissão Regional do MFA quis esclarecer completamente o sentido e o apoio ao comando de Vila Pery, em correspondência que enviou ao Gabinete e à Comissão Coordenadora do MFA, no dia 22 de Junho.  Dizia o seguinte:


“01. O Sector I (Vila Pery) difundiu no dia 12 o seu comunicado nº 2 em virtude de:


- ter surgido uns dias antes entre a população civil uma onda de boatos e de incitamento à greve na região,


- ter havido uma série de crimes em Vila Pery (três homicídios e vários assaltos à mão armada),


- parte da população branca ser francamente reacionária e racista,


- haver absoluta necessidade de as Forças Armadas se anteciparem aos acontecimentos de forma a poder controlá-los.


02. O referido comunicado suscitou diferentes reacções; assim:


- localmente foi bem recebido, porque deu à população a necessária confiança nas Forças Armadas, levando-a a colaborar nas medidas de vigilância tomadas,


- ao que se julga, em Lourenço Marques, na Beira e em Nampula provocou críticas, o que levou o QG do Comando-Chefe a pedir diversos esclarecimentos ao Sector I.


03. Em face do acontecido, a Comissão Regional do MFA de Vila Pery esclarece que:


- O comunicado teve e tem o completo apoio dos oficiais do Sector I,


- na região não houve qualquer incidente contrariamente ao que aconteceu noutras cidades de Moçambique,


- a população da região aceitou com agrado o comunicado, à excepção de alguns amigos do Engº. Jardim, que não concordaram com a referência ao seu nome,


- o comunicado foi oportuno e teve plena justificação face ao ambiente que se estava a gerar na região,


- o comando do Sector I revelou ter um conhecimento adequado da situação dentro da sua área de responsabilidade e possuir a capacidade de decisão necessária,


- lamenta-se que em determinados sectores do QG continue a haver um espírito reacionário dificultando assim as necessárias tomadas de atitudes e de decisões por parte dos escalões subordinados, a quem não pode ser minada a sua coragem moral no momento crítico que todos nós vivemos em Moçambique”. 



- Ou seja – acrescentava o João – continua a haver quem não compreenda o que está em causa, mesmo entre os mais responsáveis, e isso pode conduzir-nos a uma situação sem saída, se não continuarmos, com o apoio das comissões regionais, a lutar por uma rápida resolução do problema que temos entre mãos.


- E não se espere que outros o resolvam por nós. Temos também de saber que já não estamos sozinhos neste processo (veja-se o exemplo do Comando de Vila Pery), mas que devemos assumir as nossas responsabilidades.


- Espero que não venham a atribuir-nos a responsabilidade por tudo o que se está passando e vai passar, que essa é nossa e de mais ninguém, mas também de tudo o que ficou para trás, incluindo a situação que existia a 25 de Abril! 


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

À pocura do cessar-fogo!



Para nós estava claro o rumo - as conversações com a Frelimo deviam conduzir a um cessar-fogo. Pela forma como a política em Portugal se ia desenvolvendo, com duas posições antagónicas sobre a questão colonial, temíamos o pior. Portanto, na nossa perspectiva, não devíamos deixar o menor espaço de manobra aos negociadores. O cessar-fogo era uma exigência das tropas e nossa. A primeira mensagem desse dia (11 de Julho) foi dirigida aos nossos camaradas de Lisboa – deviam preparar-se para as consequências de um fracasso!

“Do Gabinete do MFA para o MFA Lisboa

1. Factores diversos dos quais avultam anseios, propaganda, mentalidade novas tropas vindas Metrópole, continuação operações Frelimo, exploração contradições, retraimento tropas naturais, essencialmente aspiração comum todos militares verem fim guerra e definição nova missão acordo programa MFA, lei país, tudo concorre: baixo moral tropas Moçambique capaz desencadear processo irreversível desprestigiante e incontrolável.

2. Caso negociações Frelimo não levem imediato cessar-fogo todos estes factores se agudizarão podendo resultar crise Forças Armadas consequências muito graves.

3. Assim há necessidade absoluta tornar frutíferas próximas e urgentes conversações Frelimo.

4. Através comissões regionais MFA temos notícias reacções inconvenientes parte tropas se conversações se malograrem”.

 

Mas não podíamos deixar de fazer o contraponto junto dos nossos camaradas das comissões regionais. Eles deviam estar preparados, assim como as tropas das suas áreas, para todas as eventualidades, mantendo a confiança nos negociadores do MFA e na sua capacidade de ultrapassar os obstáculos. Por isso seguiu também a segunda mensagem:

“Do Gabinete do MFA para as Comissões Regionais:

Notícias colhidas pessoalmente Lisboa indicam bom andamento para solução problema Moçambique próximas conversações, sentido estabelecimento cessar-fogo. MFA Lisboa absolutamente conhecedor situação Moçambique, determinado resolver problema. Transmitimos confiança profunda sua actuação. Apelamos vossa inteligência, bom senso, evitar atitudes prejudiciais objectivos todos pretendemos. Complexidade problema impede conhecimento público todas diligências efectuadas ou a efectuar. Pretendemos comunicar convicção MFA está mais atento que nunca. Actividade militar imprescindível salvaguarda segurança pessoas, bens, vias de comunicação. Missão nova virá ser definida Forças Armadas. Colaborar construção Moçambique só possível se Forças Armadas mantiverem disciplina, respeito mútuo, coesão. Comissões Regionais devem visitar urgente unidades, transmitir confiança MFA, sua atenção, conhecimento profundo problema, necessidade manter disciplina. Inconveniente, desastroso, insensato, pouco inteligente, atitudes irreflectidas, apesar parecer irem encontro anseios todos militares”.

 

- Estamos aqui emparedados entre as tropas que exigem urgência e os negociadores que gostariam de tempo - observava o João, analisando as duas mensagens. – Mas nem uns vão ter o tempo que talvez precisassem, nem os outros verão chegar tão cedo o cessar-fogo…

- São as contingências da situação que encontrámos. Mas ninguém em Lisboa ficará indiferente a este apelo que colocamos nas suas mãos!



quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Evitar o caos...

 


Estávamos a 11 de Julho!


Nada no terreno nos tranquilizava. Mas tínhamos notícias do empenho do MFA numa solução negociada com a Frelimo e do grande esforço que alguns dos nossos camaradas de Lisboa estavam finalmente a fazer.


Sentíamos necessidade de dar alguma esperança às tropas que se espalhavam por todo o território, e que começavam a estabelecer contactos com elementos da Frelimo, conseguindo acordar localmente a cessação das hostilidades. Essa situação, que em algumas situações incentivámos, não deixava de nos causar apreensão, em especial pela demora de uma confirmação oficial do progresso das negociações.Pensámos escrever uma carta às comissões regionais, de alerta e de esperança.- Eu escrevo um rascunho – prontificou-se o João.No mesmo dia, lida a proposta, foi a carta enviada a todos os camaradas. 


Rezava assim: 


«GABINETE DO MFA JUNTO DO COMANDO-CHEFE

Caros camaradas;

Temos que meditar profundamente no momento que estamos vivendo. Vai estando em causa todo um edifício que construímos com a nossa vida. Todas as nossas convicções, todas as certezas que eram alicerce e estrutura da nossa maneira de estar no mundo e de sentir a vida se vão desmantelando, correndo o risco de desmoronamento completo.Uma coisa é o impulso, outra, a meditação.


A ninguém restam dúvidas do caminho correcto e da urgência da partida. Tivéssemos nesta altura, cada um de nós, o poder de decisão e saberíamos, sem hesitações, seguir rapidamente ao encontro do objectivo que buscamos. Mas isso e uma hipótese. A realidade vivemo-la neste momento, e os cordéis que a conduzem não estão nas nossas mãos. Sem eliminar a possibilidade de podermos estender a mão. Considerando ainda os prós e os contras dessa atitude.

Restam-nos duas hipóteses. Ou acreditamos que se vai alcançar, nestas circunstâncias, uma vitória para a nossa causa e temos o dever de aguardarmos expectantes mas coesos, ansiosos mas disciplinados, ou não acreditamos e temos que assumir a nossa responsabilidade de guardiões do Programa do MFA, não com subterfúgios, com rodeios, com palavras ocas e desmoralizantes, com cobardias, com atitudes que poderão lançar as Forças Armadas no caos, no desprestígio, na indisciplina generalizada, mas com coragem, com hombridade, em uníssono, com a força que nos dá o povo que em nós confia. 

Portugal não espera das suas Forças Armadas uma derrocada. Espera uma solução digna. Se nos apercebemos de que a solução não está a ser procurada com todo o afinco, forcemos essa solução, mas jamais lançando os militares no caos de que nunca poderão levantar-se. Com a franca possibilidade de a sua queda ter sido em vão e negativa, pois a todos transmitimos a certeza de que tudo está em marcha para a solução por todos ansiada.
O MFA merece-nos confiança e sabemos que está profundamente empenhado na resolução do problema. E que vai consegui-lo. Se todos contribuirmos, se não deixarmos as Forças Armadas morrer.

"O MFA proclama e compromete-se a garantir".

11 JUL 74

Um abraço». 



- Esperemos que isto não seja em vão – alertou o João – esperemos que haja concordância entre este compromisso e o que está efectivamente a fazer-se a partir de Lisboa!


- Sem essa certeza, não poderíamos ter feito esta carta…



quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Para ver se entendem...



Já tinham sido ultrapassados todos os prazos. Já não sabíamos que mais explicar aos nossos camaradas de Lisboa. As negociações arrastavam-se, como se estivéssemos em posição de as prolongar. Restavam-nos dois caminhos – continuar a produzir documentos explicativos, que viessem a influenciar de algum modo a disposição dos poderes, e contrariar no terreno as orientações superiores, fechando os olhos à aproximação de soldados e combatentes, que por si iam resolvendo o problema do cessar-fogo.


Nos primeiros dias de Julho seguiu para Lisboa mais um alerta. Procurávamos explicar, de forma simples, a lógica da tomada do poder pela Frelimo, fosse qual fosse o rumo das negociações. Bastava estar atento às circunstâncias.Rezava assim:


“1. O MFA Moçambique considera que a análise e a avaliação das linhas de acção do problema ultramarino terão necessariamente que ser feitas realisticamente, tendo em conta os resultados a que previsivelmente possam conduzir.


2.            Assim admitindo que a Frelimo aceitasse a solução actualmente proposta pelo Governo provisório parece líquido prever que:
a.     O Governo eleito de Moçambique, desde que com um mínimo de legitimidade, não deixaria de desejar a independência.
b.     Imediatamente após a retirada das nossas tropas, a Frelimo, força política mais representativa e organizada e única com potencial e experiência de guerra, forçaria rapidamente a situação por forma a tomar conta do poder sem ter sequer assumido compromissos e responsabilidades de defesa de minorias e seus legítimos interesses.


3.            Admitindo que a Frelimo não aceita a solução haverá a considerar os seguintes casos:
a.     Se a solução de forças e moral das tropas em presença não se alterasse até à eleição da Assembleia na Metrópole e portanto a situação militar se mantivesse estável, tudo leva a crer que a referida Assembleia teria maioria partidária da cessação imediata das hostilidades e portanto da aceitação das condições da Frelimo, o que acabaria por traduzir dicotomia Forças Armadas/Povo e afastamento do ideário do MFA e portanto desprestígio das Forças Armadas.
b.     Se a relação de forças se continuar a alterar a nosso desfavor e o moral das nossas tropas continuar a baixar, especialmente devido à chegada de novas tropas da Metrópole, negativamente mentalizadas, haverá a considerar:
1)           A situação militar deteriorar-se até sermos forçados a negociar as condições da Frelimo sem possibilidades de pressionar condições de defesa dos interesses das minorias.
2)           A situação evoluir por forma a entrarem em acção factores e forças que nos transcendem, conduzindo a uma evolução imprevisível, podendo mesmo levar ao limiar de um confronto mundial.


4.            Nestas condições o MFA de Moçambique considera como análise realista os factores determinantes que parecem indicar:
a.     Evolução da situação através de qualquer linha de acção que conduzirá à entrega ou tomada do poder pela Frelimo ou confrontação de blocos com consequências que nos transcendem.
b.     A responsabilidade da evolução pertence ao MFA, que se garante dos objectivos de paz definidos no seu Programa.
c.      A melhor defesa dos interesses das minorias passará pela imediata aceitação e reconhecimento do direito à independência e reconhecimento da Frelimo como representante mais válido do povo de Moçambique.
d.     Manobras dilatórias no progresso das conversações serão inevitavelmente tomadas como produto de atitude neocolonialista e significam esbanjamento do único capital válido de que dispomos nas negociações e que o 25 de Abril valorizou de forma extraordinária no mercado internacional – ruptura com o passado colonialista e honestidade, sinceridade e coerência no desejo de paz expresso pelo programa do MFA”.
 


O João não podia deixar o documento sem o seu comentário:


- Embora alguns argumentos possam parecer exagerados e pouco a propósito, a lógica do processo estava à vista: a Frelimo sempre tomaria o poder, fossem quais fossem as circunstâncias. Logo, as negociações imediatas eram o único caminho que o MFA podia exigir. Nós tínhamos uma boa percepção da situação.


- Os dias a passar sem notícias concretas de progresso nas negociações deixavam-nos angustiados. Começávamos a ceder no apoio aos contactos que as nossas tropas estavam a estabelecer com os combatentes da Frelimo, sem que para isso tivessem recebidos qualquer autorização ou vissem necessidade de a obter.


- As circunstâncias iam ditando o caminho a seguir…



quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

As conversações com a Frelimo


 

A lentidão das negociações deixava-nos exasperados. Os dias passavam, os problemas surgiam de todos os lados, nós corríamos como baratas tontas a colar remendos. Todos os dias terminávamos exaustos, sem conseguirmos vislumbrar qualquer solução. Ninguém tinha dúvidas – a solução não estava nas nossas mãos, a solução tinha que vir de Lisboa!

Só nos faltava dizer a Lisboa como deviam fazer. As nossas mensagens eram progressivamente mais radicais, mais angustiantes, por vezes com pouco sentido. Mas ninguém melhor do que nós conhecia os problemas concretos – a agitação das tropas, as conspirações de muita gente inconformada, o perigo de surgirem soluções sem a devida preparação.

Foi este o contexto que nos levou a explicar, com detalhe, a solução possivelmente menos gravosa. Devemos reconhecer que não dominávamos afinal toda a realidade, e não conhecíamos muito bem a Frelimo.

A proposta seguiu para Lisboa, mas desconheço, ainda hoje, se ela foi lida por alguém. Nem sei dizer se foi melhor assim ou não, qualquer que tivesse sido o seu destino.

Eis a nossa proposta para as conversações com a Frelimo: 

 

“Gabinete do Movimento das Forças Armadas / CCM

Proposta de conversações com a Frelimo


1. Portugal reconhece o Direito à Independência do Povo de Moçambique e a Frelimo como único interlocutor válido.

2. Da premissa 1. não será dado conhecimento público por qualquer das delegações.

Pretende-se evitar:

- Tentativas imediatas de reacção em Moçambique e até em Angola;

- Actuação emocional da minoria branca e outras comunidades, ainda com meios bélicos em seu poder.

Tem-se em vista um período de actuação no sentido de consciencializar e ganhar posição de força nos lugares susceptíveis de confrontos e alteração da ordem pública.

3. Acorda-se nesta base um cessar-fogo tácito que apenas será conhecido, como partindo de cima, até um nível de comando a determinar.

Pretende-se:

- Ganhar liberdade de manobra das Forças Armadas Portuguesas para a deslocação de efectivos.

Não relacionar as conversações com o cessar-fogo para impedir especulações. O cessar-fogo deve apresentar-se como surgindo de baixo para cima, da vontade dos soldados portugueses e dos combatentes da Frelimo. Por isso se julga só dever chegar este plano ao conhecimento de determinado nível de comando.

4. As Forças Armadas Portuguesas retiram para os centros populacionais, onde poderão:

- Garantir a segurança das populações;

- Evitar conflitos.

O maior perigo que se apresenta para o futuro de Moçambique é o confronto de grupos, provocado pela reacção, podendo esta ser interna ou externa. As F.A. necessitam então de evitar essa possibilidade. Daí a sua deslocação para os centros populacionais. Isto permitirá:

- O desencorajamento da reacção;

- O desmantelamento efectivo das forças paramilitares e outras;

- O controle dos civis armados;

- O domínio da situação, especialmente no Sul do território.

5. A Frelimo e as Forças Armadas Portuguesas confraternizam, primeiro nos quartéis do mato, depois nas pequenas povoações, finalmente nas cidades.

A confraternização parte de baixo, e isso “obrigará” o Governo Português a não impedir a Frelimo de fazer a sua propaganda.

6. A Frelimo faz a sua propaganda política legal, baseada no cessar-fogo de facto.

A propaganda do ideário da Frelimo visará:

- Desfazer receios;

- Conquistar adesões;

- Consciencializar as populações a fim de colaborarem para se evitar:

         - Confrontos;

         - Vinganças

         - Paragens de trabalho;

         - Outros perigos.

7. Deverá ser marcada nova data para conversações.

Os condicionalismos do momento dirão quando será propício o anúncio público de 1.” 



O João também participou na elaboração desta proposta. Não tinha a certeza (ninguém tinha) que este fosse o melhor caminho, mas era, pelo menos, um caminho…

- Ou descobrimos uma forma inteligente de lidar com tudo isto, ou seremos apanhados pelos acontecimentos. Infelizmente parece-me muito tarde para que a nossa proposta tenha alguma hipótese de ser considerada. Vamos ter que nos preparar para o pior…

 

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Acabou o tempo do silêncio…



As comissões regionais do MFA, em especial as que se situavam em zonas mais problemáticas, nunca deixaram de nos transmitir o seu pensamento, o que constituía para nós um enorme apoio e um suporte quase inquestionável às nossas decisões.

Os oficiais do “mato”, melhor que ninguém, sabiam o que se passava no terreno e como as tropas estavam a encarar o evoluir da situação. Tínhamos, por isso, em grande conta, as suas opiniões e as suas recomendações. Eles nunca desistiam de nos enviar mensagens que exprimiam, de forma inequívoca, as suas razões.

Eis uma que recebemos de Mueda, na véspera da reunião dos oficiais de Nampula:



“Esta Comissão vê enorme inquietação que chefes não estão convenientemente informados sobre situação militar e política Cabo Delgado. Teme-se que estejam ser tomadas resoluções não coerentes com gravidade dos factos e contrárias ideário MFA. Tal facto pode provocar cisões graves. Esta Comissão acha que MFA não deve deixar deteriorar situação modo ficar fora nosso controle. Se tiverem ser tomadas decisões graves devem ser oficiais a comandá-las e não deixar situação deteriorar-se ao ponto soldados sentirem não confiar em nós. Tropa combatente em extrema expectativa. Parece que chefes continuam pensar em operações ofensivas. Acha-se que esta não tem qualquer justificação dentro contexto programa MFA. Soldados sentem profundamente situação. Situação real Cabo Delgado não tem outra saída que não seja entendimento com Frelimo mais rápido possível. Consequências qualquer outra atitude ficariam fora nosso controle. Chegou momento grandes decisões enquanto é tempo. Acabou tempo do silêncio cúmplice e cobarde. MFA não pode perder seu ímpeto revolucionário nesta hora de verdade sob pena de enxovalhar Forças Armadas e trair confiança povo. Não queremos voltar a ser marionetas”.



O João lia e relia em voz alta, sem encontrar qualquer coisa que tivesse ficado por dizer.

- A Revolução está a chegar…

Nós sabíamos isso perfeitamente. Mas a mensagem de Mueda causou em nós uma impressão duradoura. A verdade é que não podíamos ficar com ela para nós. No dia seguinte, seguiu para Lisboa, para as outras Comissões Regionais e para o Comando, acompanhada da seguinte nota:



“Junto envio fotocópia duma mensagem da Comissão Regional de Mueda à qual este Gabinete adere sem reservas.

É na verdade preocupante e intolerável a situação de impasse a que se está chegando. Sabe-se que, existindo uma evidente contradição entre os objectivos que a política pretende atingir e a realidade que existe em Moçambique, se irá dar uma ruptura dentro das Forças Armadas. E somos de parecer que quanto mais abaixo na escala hierárquica essa ruptura acontecer piores virão a ser as consequências. De qualquer modo está iminente uma tomada de posição dos escalões inferiores”.

 

- Eles vão escutar a voz da razão, e nós nunca poderemos desistir de levar os factos ao seu conhecimento.

Era esta a conclusão unânime!



quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Reconhecer os direitos dos povos...



À medida que os dias passavam, mais se acentuava uma sensação de desconforto perante o evoluir da situação. Nós sabíamos muito pouco sobre as conversações, para além daquilo que era do conhecimento público. As notícias do que se passava no terreno não era de molde a tranquilizar-nos, tanto da parte das populações, brancas e negras, como das tropas. Todos pressentiam um fim de época, uma mudança profunda de vida, mas ninguém se atrevia ainda a assumir as rupturas necessárias.

Os mais activos, ainda assim, eram os representantes de minorias brancas inimigas do processo iniciado com o 25 de Abril, conducente à independência de Moçambique fora do seu controle. Os trabalhadores concentrados nas zonas urbanas imitavam os seus congéneres de Portugal, fazendo greves e lutando pela melhoria das suas condições de trabalho; nas zonas rurais levantavam-se revoltas locais, sem qualquer plano de conjunto. Por sua vez, os militares ansiavam por uma palavra que confirmasse o que todos começavam a considerar inevitável – o acordo com a Frelimo para a transferência de poder.

No meio destas tensas expectativas, nós, membros do MFA local, não podíamos permanecer acomodados às diminutas notícias das negociações e ao lento desenvolvimento do processo. O mês de Julho foi um período de grande actividade, que nos conduziu a uma firme intervenção no rumo dos acontecimentos. Nós não podíamos deixar correr o tempo, pois sabíamos que corria contra nós. A situação no terreno impunha-nos uma série de tomadas de posição, até que Lisboa aceitasse a lógica que decorria do 25 de Abril e do Programa do MFA – o reconhecimento do direito dos povos à independência e, no caso de Moçambique, a aceitação da Frelimo como interlocutor privilegiado.

Era esse o sentido da convocatória para uma grande reunião de oficiais em Nampula, no dia 2 de Julho, ao fim da tarde. Eis os seus termos:

 

«Convocatória

1. Considerando:

a. Que o Gabinete do MFA junto do Comando-Chefe, além das suas funções, vem exercendo por acumulação as funções da Comissão Regional (de Nampula) e que esta prática se tem mostrado inconveniente;

b. Que na reunião efectuada em Nampula com todas as Comissões Regionais foi considerado, face à situação real em Moçambique, que era da maior urgência e necessidade sair do impasse político a que o Governo chegou nas conversações com o PAIGC e com a FRELIMO;

c. Que na mesma reunião houve unanimidade em considerar que tal impasse só seria ultrapassado se o Governo português reconhecesse o direito dos povos à independência;

d. Que há necessidade de informar concreta e esclarecidamente todos os escalões militares e do Governo do pensamento da maioria dos elementos afectos às suas decisões, para que estas sejam tomadas na posse de todos os dados e consequentemente perfeitamente adaptadas às realidades;

e. Que em reunião efectuada em Nampula em 1 de Julho com oficiais do MFA foi aprovado por unanimidade que se deveria pôr à consideração e votação de todos os oficiais da guarnição de Nampula, reunidos em plenário, a seguinte moção:

“Que se deverão reiniciar as conversações com a FRELIMO aceitando os seguintes princípios:

 - Reconhecimento prévio do direito à independência do povo de Moçambique

 - Reconhecimento da FRELIMO, no actual contexto político, como representante mais válido do povo de Moçambique”.

2. Convocam-se todos os oficiais da Guarnição de Nampula para reunirem em plenário, no cinema militar, pelas 18 horas de hoje, dia 2 de Julho de 1974, com a seguinte agenda de trabalhos:


a. Eleição da Comissão Regional de Nampula.

b. Discussão e votação da moção referida em 1.e.»



- Esta fase da nossa intervenção vai levar-nos a uma conquista definitiva, correspondente aos nossos anseios, não sendo por isso tempo de desistência ou fraquezas. Algum dia a revolução iria chegar aqui… - O João falava com calma, mas com muita firmeza.

Nós sentíamos que estava a chegar a altura de fazermos o que devíamos fazer.