sábado, 30 de março de 2013

Primeira carta às Comissões Regionais do MFA

 

Logo no dia 26 de Abril, "primeira aurora do novo tempo", enviámos às comissões regionais do MFA uma carta muito empenhada, encimada pelos versos de “Grândola, Vila Morena”, poema completo.

Dizíamos o seguinte:

 

“26 de Abril de 1974

Camaradas

1. Vivemos decerto dos dias mais plenos da nossa carreira de militares. O prestígio por que clamávamos vai ser a partir de agora, 25 de Abril de 1974, possível. É já uma realidade. A população desinibida, libertada, aplaude as Forças Armadas, acarinha-as, acompanha-as durante os momentos mais críticos do dia 25 de Abril. Ela sente que já se pode rever neste velho espelho, limpo e restaurado!

2. Acto corajoso, este; de coragem cívica, moral e física; não só a conquista do poder, que essa era previsível e da nossa mais elementar obrigação, mas fundamentalmente corajoso pela atitude ímpar de inteireza e dignidade política, como, acto imediato, no primeiro dia da Revolução, se libertaram os presos políticos e se aboliu toda e qualquer censura ou exame prévio dos órgãos de informação, quando haveria a natural tentação de classicamente se pretender o sossego burguês do regime.

3. Estranha sensação esta, a de ter vontade de dizer coisas boas daqueles que nos governam.

4. As nossas informações acerca dos acontecimentos serão desnecessárias pois tudo (!) vos chega em primeira mão através da rádio e dos jornais. Lembramos, amigos, o nosso Movimento dos Capitães é agora o Movimento das Forças Armadas. Chamamos a atenção para o facto fundamental, politicamente mais importante, de que o Movimento continua, depois de ter feito a revolução, a ser o motor central de todo o programa a realizar, já comunicado à Nação em proclamação do M.F.A. Mantém-se assim o MFA, no seu singelo anonimato, como elemento doutrinário fundamental, delegando a execução do poder na Junta de Salvação Nacional que perante ele assumiu o compromisso de seguir e fazer cumprir o programa estabelecido. O Movimento continua pois, mais do que nunca, militante.

5. Devemos ainda prestar a nossa homenagem à honestidade de processos, dignidade dos comunicados e das atitudes para com os elementos contrários e ainda a pureza e o alcance dos objectivos visados e proclamados.

6. Estamos no início de uma nova época. É necessário agora lutar intransigentemente, honestamente, alegremente, entusiasticamente, para a prossecução dos nossos objectivos.

7. Vamos pois trabalhar. Aqui e agora, principalmente na reconstrução do espírito, da disciplina, da eficiência, da isenção. Vamos lutar com entrega total e esclarecida.

Um abraço de solidariedade.

Vivam as Forças Armadas.

Viva Portugal.”

 

O João queria deixar logo ali claro qual era a posição do MFA em Moçambique, para além da euforia das primeiras horas, mas nem ele próprio conseguiu formular um pensamento que ultrapassasse esse encantamento inicial.



 

Início da carta, com a "Grândola, Vila Morena", poema completo...

 

O João

 

O João atrasou o mais que pôde a incorporação no Exército e a ida para a guerra. Foi o melhor da sua recruta em Vendas Novas. Quando foi mobilizado tinha mais de um ano de tropa. Pensou em dar o salto, mas acabou por se conformar.

 Chegou a Moçambique no final de 1973, com 24 anos. O Exército promoveu-o a tenente pouco depois.

No 25 de Abril estava em Nampula, de baixa. No seu batalhão não tinha funções muito definidas. Deixou-se ficar. Prolongou a baixa e preparou-se para uma longa estadia em Moçambique, opção pessoal. Foi requisitado para trabalhar com o MFA, mas nunca gostou de gabinetes. Passou a fazer “trabalho da Revolução”, como gostava de dizer.

De seu nome completo João André Afonso Cancela, era meu primo afastado, circunstância que iríamos averiguar nas longas noites que nos esperavam.

Costumava dizer: - A Revolução ainda nem começou!

E eu pensava: - Temos homem…

O João cresceu no campo. Nesse tempo, os dias eram grandes e as noites muito longas. As tardes de Verão tinham sons especiais. Os cheiros renovavam-se ao ritmo das estações, dos trabalhos agrícolas, das cerimónias campestres, das festas e das romarias.

Era este o seu mundo, mas a vida se encarregou de lhe abrir outros horizontes. Caminhava agora por uma rua longínqua, numa cidade de Moçambique, num momento de grandeza. Trabalhava com e para o MFA. Estudara arduamente e pressentia que devia continuar naquele lugar. Podia ter regressado a Portugal. Para além de tudo, tinha razões pessoais para o fazer, mas a relevância do momento e da tarefa que adivinhou foram mais fortes do que as suas preocupações. O seu destino em Portugal seria a Escola, como veio a sê-lo, e não vislumbrava nisso grande empolgamento.

Em Moçambique, pelo contrário, estava em aberto a construção de um novo país. Não duvidava de que iria assistir ao nascimento de uma nova realidade, a uma escala imensa, e nesse processo poderia ter um pequeno papel. E ele estaria por dentro! Quem poderia mais tarde lembrar uma façanha igual? Não era só o acaso de estar naquele lugar na hora decisiva, era também a oportunidade que agarrava com empenho, com alguma exaltação, como uma experiência de vida irrepetível. Ficou.

 

- “A Revolução ainda nem começou!”, e pensando-o, justificava a sua opção…

 

 


                              A nossa escola, numa foto mais recente (à direita, na imagem)

 

segunda-feira, 25 de março de 2013

Fio da História 2 ou A Revolução ainda nem começou...


 
Volto hoje ao “Fio da História”.
Será um Fio da História 2, onde irei deixando uma memória que me sobra de um período que vivi com grande intensidade, o pós-25 de Abril em Moçambique, como membro do MFA local.
Quando fizemos o lançamento do meu livro “O Meu Avô Africano”, que reunia os principais documentos do Movimento dos Capitães em Moçambique, juntamente com reflexões que o desenrolar dos acontecimentos me havia suscitado, quase prometi que daria continuidade a essas reflexões, mas abrangendo o período seguinte, desde o 25 de Abril até ao governo de transição, ou mesmo até à independência. É essa promessa que irei tentar cumprir!
Não sei se me será possível manter alguma regularidade. Os dias ditarão a minha disponibilidade e a minha disposição. Também não prometo textos prontos e bem alinhados, como se fizesse um livro. E nem tudo surgirá na sua ordem lógica! A vantagem destes espaços é precisamente essa, a de permitirem o ensaio, a discussão, a revisão, o aperfeiçoamento. Tenho uma moderada expectativa de que alguns amigos me acompanharão neste percurso…
O meu primeiro amigo, que quero desde já apresentar-vos, será o meu primo João. Nós temos o mesmo bisavô e praticamente só nos viemos a conhecer em Moçambique, estando ambos na tropa. Terei oportunidade de vos falar dele mais adiante, mas a sua história é muito simples.
Eu nunca conheci o João muito bem. Crescemos na mesma aldeia, no concelho de Vinhais, mas quando ele nasceu já eu tinha sete anos. Quando ele foi para a escola, já eu não estava lá; quando ele chegou a Bragança para entrar no liceu, estava eu de saída; quando ele foi para Lisboa a fim de estudar História, já eu estava em Vendas Novas na Escola de Artilharia; e quando ele, antes de ser mobilizado para a guerra colonial, se apresentou em Vendas Novas, para o curso de oficiais milicianos, regressava eu de Angola e rumava a Lisboa. Quer dizer, o facto de termos nascido na mesma aldeia não foi suficiente para um dia termos uma conversa mais próxima.
O nosso encontro, meu e do João, deu-se em Moçambique, nos finais de 1973, quando ambos, por caminhos distintos, chegámos a Nampula.
Por isso, só quando nos encontrámos na tropa, lugar de afinidades, viemos a falar dos nossos laços familiares.
É com ele que inicio esta viagem…


 
Esta é a nossa aldeia, minha e do João, numa foto de 2010.