quarta-feira, 29 de maio de 2013

O 25 de Abril e a guerra em Moçambique


Em Moçambique ocorreu um caso particular da evolução do Movimento dos Capitães, em estreita ligação com a situação militar no terreno.

 

Contrariamente aquilo que por vezes se quer fazer crer, a guerra em Moçambique era, nos finais de 1973 e inícios de 1974, um sério problema militar. Para além das três frentes onde a FRELIMO se implantara em definitivo (Cabo Delgado, Niassa e Tete), o movimento de libertação conseguira aproximar-se e mesmo ultrapassar o eixo Beira-Rodésia e infiltrar-se na Zambézia, obrigando a um enorme alargamento das frentes de combate efectivo. Não será oportuno alongar as referências à guerra colo­nial, mas é necessário realçar, para o caso de Moçambique, o seguinte:

·         54% dos efectivos globais das forças portuguesas pertenciam ao recrutamento local, o que corresponde a cerca de 65% das tropas combatentes (excluindo as chamadas "populações em auto-defesa").

·         As grandes operações levadas a efeito em Cabo Delgado a partir de 1970, tinham desgastado excessivamente o pessoal e em especial o material de apoio - viaturas, transmissões, meios aéreos, armamento pesado, etc.

·         A construção da barragem de Cabora Bassa, e da respectiva linha de transporte de energia, consumia enormes efectivos, o que obrigava a desguarnecer outras frentes.

·         A utilização, por parte da Frelimo, no início de 1974, do míssil terra-ar Strella, terminava com a absoluta supremacia aérea das forças portuguesas, tantas vezes decisiva na solução militar dos combates e indispensável suporte psicológico das acções terrestres.

 

A este propósito convém que se diga o seguinte: segundo o manual O Exército na Guerra Subversiva, que ensinava aos militares portugueses o abc deste tipo de guerra, a sua evolução processava-se em cinco fases, desde a preparatória até à insurreição geral. Ora, nas colónias portuguesas, por motivos que não vem ao caso aprofundar, a guerra nunca passou da terceira fase (fase da guerrilha), a não ser na Guiné, onde a guerra tendia a entrar na 4a fase, em especial a partir de 1973, com a declaração da independência, a criação pelo PAIGC de bases efectivas no interior do território e a materialização da sua superioridade militar em certas áreas, baseada sobretudo na utilização dos mísseis terra-ar. Em Moçambique, com a utilização da mesma arma, poderia caminhar-se no mesmo sentido em 1974. Ora, as forças portuguesas não estavam preparadas, nem mate­rial, nem psicologicamente, para enfrentar a 4ª fase da guerra. A intervenção militar de forças da Rodésia e da África do Sul, pelo menos em termos de apoio logístico, era já estrategicamente importante, sendo mais significativa ao nível da Zona Operacional de Tete.

 

A substituição das unidades metropolitanas estava atrasada em 25 de Abril em cerca de seis meses. Isto decorria da dificuldade de mobilização em Portugal e vinha-se agravando desde 1972. Alonguemo-nos um pouco mais neste ponto. A substituição das unidades ao fim de 24 meses de comissão (rendição das tropas, em termos militares) era um ponto essencial na estratégia de gestão de pessoal pelas implicações psicológicas que o facto causava em todo o contingente mobilizado. De uma forma geral o princípio foi respeitado até ao início da década de 70. Mas a partir de 1972 a dificuldade de quadros profissionais (em especial capitães), as crescentes necessidades operacionais motivadas pelo alargamento das frentes de combate ou da intensidade da acção da guerrilha, e o esgotamento das reservas de mobilização, levou a que aquele princípio quase sagrado das rendições em tempo fosse posto em causa. Assim, com enorme influência no moral das tropas, várias unidades viram adiado o seu regresso a Portugal cifrando-se o atraso (o chamado “mata-bicho”, na gíria militar) em mais de seis meses na primeira metade de 1974. Foi esta dificuldade que conduziu à crescente africanização da guerra, que podendo fazer-se ao nível dos soldados e mesmo dos quadros inferiores, não era possível ao nível dos capitães, na função primordial de comandantes de companhia. É esta também uma das causas que conduziu à necessidade de acelerar a sua formação, medida contemplada nos decretos de 1973, com o acesso acelerado dos oficiais milicianos ao quadro permanente e ao posto de capitão. Mas desta situação é necessário realçar a influência que ela exercia na situação psicológica dessas tropas e dos seus comandantes.

Em Moçambique, muitos dos participantes no Movimento dos Capitães viram de início, nessa movimentação, uma forma eficaz de pressionar os altos comandos no sentido de ser normalizada a rendição das unidades, no final da sua comissão de 24 meses. Entre parênteses: uma das mais graves dificuldades com que os comandos (e também o MFA local) se debateram após o 25 de Abril foi a exigência (para além do mais perfeitamente justa) de as unidades com a comissão cumprida serem substituídas. Para se ter uma ideia da magnitude do problema, deve dizer-se que quase 30% das unidades metropolitanas estavam nessa situação.

 

- Nas reuniões do movimento, sempre me pareceu – recordava mais tarde o João – que alguns participantes estavam genuinamente convencidos que o objectivo era o de dar às Forças Armadas condições para continuarem a guerra, se assim o povo português o entendesse. Eles tendiam a opor-se à hipótese de avançar para negociações antes de haver eleições…

 

- O que aconteceu foi que muitos militares (incluindo alguns dessa corrente), depois do 25 de Abril, tentaram acelerar o acto revolucionário; já não lhe chegava o imediato reconhecimento do direito dos povos coloniais à independência, queriam ainda que o poder fosse transferido de imediato, e as tropas regressassem sem demora a Portugal!

- Ficámos ali no meio, entre os que mantinham a linha do antes do 25 de Abril e os que reconheceriam a FRELIMO no próprio dia e tudo fariam para embarcar sem demora!

 

 

  A guerrilha tinha alargado as suas frentes de acção militar, atingindo o coração do território, a zona central e o corredor da Beira. Todos percebemos, mesmo antes do 25 de Abril, que a guerra estava a escapar ao controlo das Forças Armadas Portuguesas.

Imagem do ADN.

 
 
 

domingo, 26 de maio de 2013

Pontos a considerar...

 

 

Quando em Lisboa tomava posse o I Governo Provisório resultante da aplicação do Programa do MFA, nós, em Moçambique, enviámos esta mensagem ao MFA de Lisboa, datada de 15 de Maio:

 

“1. Os comandos militares de Moçambique ainda não foram mudados à semelhança do que aconteceu em Angola e Guiné.

2. A situação em Moçambique não é mais fácil do que nos outros teatros de operações, antes pelo contrário. Da mesma forma a atitude dos comandos relativamente à revolução e até mesmo à sua capacidade de resposta às solicitações imediatas dela decorrentes e prontidão nas decisões que foram e são imperiosas, se revelam absolutamente negativas.

3. A situação por parte dos oficiais do Movimento é explosiva, pois não podem encarar os comandantes e C.E.M. [Chefe de Estado-Maior] que consideram incapazes e absolutamente fora do espírito do movimento. O andamento do processo revolucionário é travado a todo o momento.

4. A situação do movimento em Moçambique, subordinado a uma hierarquia sancionada desde 27 de Abril pela J.S.N. é insustentável e ameaça tornar-se inoperante se não houver uma imediata substituição dos dirigentes militares por elementos integrados no espírito do movimento.

5. Cremos firmemente que muitas das manifestações e até actos reprováveis e terroristas têm a mão da D.G.S. É necessário que os quadros até inspector sigam de imediato para Lisboa.

6. Foi dito ao Comandante-Chefe de Moçambique que há uma comissão de advogados que se ofereceu, à semelhança do que aconteceu em Lisboa, para a título gratuito reverem os processos dos presos políticos. A resposta foi que talvez não, porque era gente nova e portanto tendenciosa.

7. O Movimento de Moçambique não pode responsabilizar-se pelo caminho que as coisas levarem se se mantiverem estes parâmetros”.

 

Em termos de escrever papéis não podíamos ser mais claros, mas arriscávamo-nos a não ter resposta.

 

- Eles têm mais que fazer! Como podem perder tempo com Moçambique? Nós é que temos de intervir, de assumir as nossas responsabilidades. Isto só vai com acção! A Revolução ainda nem começou! – palavras do João, que quebrava sempre os nossos silêncios.

 

De facto, o João não tinha muitas dúvidas sobre o que devíamos fazer. Ele bem sabia que não se podia ir depressa demais, mas também não esperava encontrar tantas resistências…

 

A mudança política estava feita; o projecto colonial anterior não fazia sentido, por mais interesses, alguns legítimos, que se interpusessem entre o que era necessário fazer e o que era possível fazer. O que o irritava é que tanta gente estivesse paralisada, à espera da Junta de Salvação Nacional, do MFA de Lisboa ou de outras orientações.

 

- Temos de agir! (estas eram sempre as suas palavras). Hoje trago uma relação de pontos que é preciso considerar. É o mínimo, para não perdermos o controlo da situação. O problema é que ninguém vê sinais vindos dos novos detentores do poder. Arriscamo-nos a perder a pouca autoridade que ainda nos resta.

 

A seu pedido, eu apresentava as propostas. Foi no dia 19 de Maio. Estávamos quase a fazer um mês de liberdade! Em Moçambique só o povo, ou os povos, tinham percebido que podiam mudar alguma coisa. O MFA continuava à espera…

 

O João pediu-me para fazer circular por todos os presentes, em mais uma reunião, o seguinte documento manuscrito:

 

“Pontos a considerar:

 

1. Remodelação imediata do dispositivo:

- Forças de ordem pública

- Fim dos pequenos destacamentos

- Reserva.

2. Elaboração de planos de operações, admitindo diversas hipóteses.

3. Constituição de uma Comissão Coordenadora Política.

4. Constituição de grupos de trabalho para estudos políticos.

5. Nomeação de comissões ad-hoc para os órgãos de informação regionais.

6. Elaboração de informação política através de jornais, rádio, panfletos de acordo com os grupos referidos em 4.

7. Organização de viagens à Metrópole de elementos do Movimento.

8. Revisão dos processos dos presos políticos além da Machava.

9. Saneamento da ex-DGS. Ocupação das suas instalações. Elaboração de uma circular elucidativa para os comandos militares.

10. Revisão da situação dos assalariados das Forças Armadas.

11. Instalação do MFA a fim de os grupos de estudo poderem trabalhar e haver elementos de estudo reunidos.

12. Constituição de um Gabinete do MFA para trabalhar junto do Comando-Chefe.

13. Constituição de comissões para estudos militares – estatutos, RDM, etc.

14. Elaboração de normas para se efectuar o saneamento das Forças Armadas e Militarizadas”.

 

O documento foi aprovado por unanimidade e passado à prática em muitos dos seus pontos. Estava dado um primeiro passo significativo. Os dias imediatos foram compensadores.

 

Nós sabíamos que muitas das medidas aqui referidas estavam em andamento e prestes a concretizarem-se, mas era tudo tão vagaroso, face à nossa pressa de mudar, que todas as proclamações se impunham e se completavam. Já que a questão essencial, que nunca saía da nossa cabeça, parecia adiada para a eternidade, ao menos exigíamos, por unanimidade, outras medidas que também nos preocupavam. Mas, lá no fundo, o essencial permanecia obscuro – nada sabíamos sobre as iniciativas que levassem ao fim da guerra!

 

- João, estes dias agitados não nos têm permitido falar de outras coisas, mas acho que chegou a altura de pormos algumas conversas em dia.

- Eu sei que devemos fazê-lo, mas não encontro forma de iniciar uma conversa por tantos anos adiada, por entre o tumulto das questões que agora são mais urgentes...

- É verdade, mas a vivência conjunta destas horas intranquilas talvez seja boa conselheira para sabermos um do outro e para ultrapassarmos finalmente as circunstâncias que o têm impedido!




 

 

 

 

 

 

 

 

 

Queríamos que todos em Lisboa soubessem que o MFA de Moçambique não podia ser responsabilizado, enquanto os comandos não fossem substituídos... 

 


quarta-feira, 22 de maio de 2013

Os capitães


Em algumas análises do movimento militar que preparou e realizou o 25 de Abril, subsiste certa confusão entre duas realidades que se manifestaram historicamente inconfundíveis - ­o Movimento dos Capitães e o Movimento das Forças Armadas.

 

É certo que o Movimento dos Capitães se vai transformando em MFA, mas também é verdade que este, uma vez nascido, se afasta irremediavelmente do seu antecessor. O Movimento dos Capitães tem objectivos que rapidamente se alteram (nem historicamente fariam sentido) ainda antes do 25 de Abril.

 

O Movimento dos Capitães nasce de uma reivindicação corporativa, depois transformada numa necessidade mais vasta. Enquanto a questão dos decretos de 1973 prevaleceu, mesmo englobada na mais vasta problemática do prestígio do Exército e da adaptação das missões das Forças Armadas e adequação dos meios postos à sua disposição, o Movimento não se atreveu a saltar para além da sua especificidade própria. No dia em que, baseado embora em todo o enquadramento fornecido pela história do seu aparecimento e consolidação, pôs em causa a continuação da guerra colonial e se atreveu, em terreno já suficientemente preparado, a lançar a semente da contestação ao seu próprio envolvimento num conflito sem sentido (ainda não classificado de injusto), o Movimento dos Capitães transformou-se naturalmente em Movimento dos Oficiais das Forças Armadas (MOFA). Este passo foi dado com o documento de Cascais em 5 de Março de 1974, significativamente intitulado "O Movimento, as Forças Armadas e a Nação". Com o aperfeiçoamento do seu programa, a consideração da inevitabilidade do golpe militar e da tomada do poder, o movimento deixou de ser de Oficiais, para ser muito naturalmente das Forças Armadas, o que ocorreu nas vésperas do 25 de Abril.

 

O Movimento dos Capitães teve de início uma sólida participação dos oficiais do quadro permanente do exército afectados pelos decretos 353 e 490/73, participantes enquanto tal, e uma decisiva presença de outros oficiais que pressentiam a possibilidade de o caso, pelas suas características, poder originar conflitos mais extensos (estivessem ou não afectados também pelos decretos). O factor corporativo é de primordial importância na mobilização inicial e na concretização de uma série de acções colectivas, inviáveis sem essa motivação. O conjunto de oficiais que iniciou o movimento e aqueles que se lhe foram juntando encontraram um motivo razoável, transformado por um pequeno grupo mais consciente, numa razão justa e indiscutível.

 

A contestação aos decretos não pode ser olhada como um mero pretexto, já que de facto eles congregaram muitos oficiais que só posteriormente, a pouco e pouco, se foram apercebendo das potencialidades do movimento em que participavam e da possibilidade de transformar a natureza da reivindicação inicial. Este processo não foi simples, e nem todos os oficiais integrados no movimento conseguiram admitir a mudança dos objectivos iniciais.

 

Era frequente, já depois do 25 de Abril, falarmos do nosso passado recente. Em Moçambique, o João intervinha sempre que tinha oportunidade:

 

- Tornou-se muito interessante observar a evolução da consciência que os capitães foram adquirindo, tanto sobre a situação política portuguesa, como do seu próprio papel, em especial na continuação da guerra colonial.

- E também sobre a importância que tinham para a manutenção da política colonial do regime, assim como da sua força, logo que pudessem actuar em conjunto.

- O regime tinha um nó górdio para desenlaçar, no centro do qual estavam os capitães do Exército; sem eles o regime não podia continuar a guerra e sem a guerra o regime punha-se a si próprio em causa.

- Os quadros médios sabiam que a guerra já não tinha razão de ser, e que a situação só podia piorar.

- Também algumas figuras do regime o pensavam, mas nunca se atreveram a forçar uma mudança substancial da política colonial, a não ser na fase final, pouco antes do 25 de Abril, ao admitirem formas de autonomia muito mais alargadas do que seria de esperar.

- E ao chamarem em seu socorro forças estranhas ao modelo que o regime sempre tinha defendido…

- A África do Sul e a Rodésia!

- Exactamente, a aliança construída com os dois regimes racistas da África Austral pretendia antecipar-se à intervenção dos capitães, que certas figuras do regime davam como certa!

- Atrasaram-se, ou, o que vem a dar ao mesmo, os capitães adiantaram-se…

- E esse último grande projecto do colonialismo português perdeu todo o sentido após o 25 de Abril!

 

 

domingo, 19 de maio de 2013

Grupo de Trabalho Conjunto

 

Ainda em Abril, após as primeiras reacções, o encarregado do governo-geral de Moçambique e o comandante-chefe constituíram um grupo de trabalho para a implementação das “medidas imediatas” do Programa da “Junta de Salvação Nacional”, conforme rezava o despacho. O grupo integrava os seguintes militares: brigadeiro Ribeiro de Faria (Presidente), coronéis Nogueira de Freitas e António Maria Rebelo e tenentes-coronéis Cunha Lopes e Ramires Ramos.

Que me recorde, ninguém do MFA local foi consultado ou sequer informado. Mas, dado o rol de preocupações apresentado, não nos pareceu oportuno levantar obstáculos. O GT tinha a sede em Lourenço Marques, o que inviabilizou contactos regulares. Esteve em actividade durante cerca de três semanas, entre 29 de Abril, data da constituição e 20 de Maio, data da sua dissolução, por ter sido constituída a Comissão Coordenadora do MFA junto do Governo-Geral, como já vimos. Ainda assim, o tenente-coronel Cunha Lopes transitou para a Comissão do MFA, onde se manteve quase até ao fim do processo de descolonização.

O relatório do GT tem a data de 20 de Maio e aí são apresentadas as suas principais actividades, resultantes das preocupações que de início foram referenciadas. Foi um trabalho importante, quase sempre burocrático, indispensável à aplicação das medidas previstas no Programa do MFA.

Foram estas as medidas deduzidas do Programa:

1.    Extinção da Delegação da Direcção Geral de Segurança (DGS) de Moçambique e sua reestruturação;

2.    Extinção da Mocidade Portuguesa e da Mocidade Portuguesa Feminina;

3.    Amnistia de presos políticos;

4.    Abolição da censura e exame prévio. Criação do Comissão Ad-Hoc;

5.    Reintegração voluntária dos servidores do Estado destituídos por motivos políticos;

6.    Controlo de fronteiras;

7.    Controlo económico e financeiro;

8.    Combate eficaz contra a corrupção e especulação;

9.    Extinção da Acção Nacional Popular.

 

Para além destas tarefas, o Grupo de Trabalho assumiu também outras áreas que nada tinham a ver com o Programa do MFA, em resposta a questões que estavam pendentes, tais como: “Instalação de uma estação de rádio democrática, independente e informativa”, “Sindicato dos estivadores”, “Magaíças”, “Reivindicações e greves”.

Era um vasto programa de intervenção, que acabou por ter resultados muito diferentes, já que algumas medidas foram concluídas em poucos dias, outras foram apenas iniciadas e outras praticamente nem chegaram a ser abordadas. A verdade é que, ao mesmo tempo que os dias passavam sem que o MFA conseguisse que as suas comissões fossem reconhecidas, as autoridades constituíam estes órgãos de transição sem qualquer interferência ou conhecimento do Movimento.

Como diria o João – A Revolução ainda nem começou!

De qualquer forma, daremos conta das medidas concretas que foram levadas a cabo e dos seus resultados. E também abordaremos as reacções que elas provocaram, em especial no seio dos vários sectores da população. Sempre que nos pareça oportuno referiremos o relatório deste GT, onde se resumem as preocupações urgentes do pós-25 de Abril e as orientações que foram assumidas no primeiro mês de mudança.

 
 

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Que fazer com este poder!


 

-Que fazemos com este poder? - pergunta-me o João, ao início de mais um dia de preocupações.
-Aqui, nada! O verdadeiro poder está em Lisboa…
-Evidentemente, eu referia-me a Lisboa. Aqui, resta-nos estar entre uma colaboração forçada e o contrapoder possível…
-Eu optei por ficar, mas, como sabes, poderei regressar a Portugal quando assim o entender… E contudo, sinto-me bem com a opção que tomei.
-Tens receio que em Lisboa te chamem a participar no poder!
-Provavelmente. Prefiro observar, dar opinião, prever caminhos. Não me sentiria bem se tivesse de exercer, de facto, qualquer poder que ultrapassasse a minha competência…
-Não tens menos competência do que muitos que se movimentam nessas esferas…
-Mas observo que não estão preparados. Mais, alguns que eu julgava preparados afastam-se, e outros, que nunca vi, aparecem na linha da frente!
- A revolução vai devorá-los. E mesmo nós, que assumimos o lugar que nos pertence neste grande jogo da mudança, acabaremos por ser atingidos pelas ondas de retorno! Por isso, te pergunto – que fazemos com este poder?
-Devemos exercê-lo, mas com objectivos claros e numa perspectiva temporal muito definida. Depois, o povo decidirá. Nós também somos povo, e se nos achamos qualificados, devemos estender o mesmo juízo aos nossos concidadãos, considerando que assumirão, com sabedoria, as suas responsabilidades…
-Temo que o poder nos atraia, mas confio nos teus amigos. Espero que eles saibam traçar os limites precisos do nosso empenho.
-Mas não podem, neste momento, deixar o poder nas mãos de quem ainda não compreendeu que em Portugal se deu uma revolução, uma revolução democrática!
- E que essa revolução, em face das circunstâncias, se estendeu aos territórios coloniais, onde persiste uma situação de guerra.
-Essa é a parte que nos pertence - como aplicar as consequências da mudança em Lisboa a este contexto especial. Como interpretar o sentido democrático do movimento em Moçambique, como ultrapassar a continuação do conflito armado, como respeitar orientações que não têm em consideração a realidade, numa palavra, como trocar um modelo, que é imperioso em Portugal, por vidas concretas dos soldados portugueses a quem se exige que continuem a guerra nas colónias.
-Pois eu não vejo qualquer dificuldade nesse dilema – com a revolução portuguesa, a guerra acabou. Só esse pode ser o princípio que nos guia, com a certeza de que teremos de nos bater pela sua aplicação.
O João, motivado pela conversa, prometeu o texto de uma mensagem a enviar a todos os elementos do MFA, que apresentou pouco depois:
 
“Gabinete do MFA junto do Comandante-Chefe
25 de Maio de 1974
Caros camaradas
O 25 de Abril constituiu o encontro das Forças Armadas com a sua consciência.
Quando demos força à voz do povo, nada mais fizemos que dar a esse povo que representamos, o que de direito lhe pertence.
Se nos reconciliámos nem por isso devemos esquecer que é principalmente nossa a culpa do caos a que Portugal chegou.
Medimos o acto, mas não o tempo. Cabe-nos o esforço da recuperação, a vigilância permanente que evite a repetição, a garantia de que será dado ao povo o que ao povo pertence.
Começa nesse exame e nessa determinação a nossa vigilância. E não nos parece possível vigiar a nação, sem nos vigiarmos a nós próprios.
Se somos o garante da lei justa, seremos primeiramente exemplos do seu cumprimento.
O programa do Movimento é a verdadeira Constituição Política da Nação. É a Bíblia dos militares.
A meditação e análise profunda dos seus pontos é a imposição mais lógica do Movimento aos seus componentes.
Para se detectarem desvios tem que se penetrar no completo significado das suas proposições. Só nestas condições estaremos fora do alcance do número 2-, 2) h).
Cabendo-nos então ser garantes duma constituição teremos que ser em tudo essencialmente políticos, já que teremos de estudar, analisar, impulsionar as medidas governativas destinadas a pôr em execução os princípios do nosso Programa.
Teremos que saber distinguir quando uma lei, uma determinação, um decreto, estão ou não dentro do espírito do Programa.
A Junta de Salvação Nacional foi constituída pelo Movimento a quem este entregou a tarefa de executar o seu Programa, tal como nele próprio é referido.
Foram considerados os homens sem sono e na Lei nº 3/74 diz-se: “Até à sua dissolução, a JSN considerar-se-á em reunião permanente”. Ora se mesmo essa Junta não pode escapar à nossa análise, forçoso será que nos consideremos, igualmente, em reunião permanente.
Está nomeado o Governo Provisório Civil, de acordo com o Programa; movimentam-se as forças económicas, verdadeiras detentoras do poder; acordam as forças proletárias; espreitam as forças reaccionárias. Todas com os seus poderes e com hipóteses de domínio.
Mas, onde termina a revolução das Forças Armadas?
Supomos que apenas se considerará terminada quando se restabelecer o equilíbrio. Sem esquecer que terá novamente de actuar se esse equilíbrio voltar a ser interrompido.
As Forças Armadas serão sempre, como dissemos, essencialmente políticas, com um programa simples e bem definido – o bem do povo.
Em Moçambique, o relógio da Revolução bate atrasado. Culpa do Movimento?
Pensamos em todas as virtudes que o movimento deverá possuir – acutilância, firmeza, aceleração, mas também sensatez e calma.
De todas temos usado, talvez ainda um tanto desabituados do enquadramento completamente novo em que nos lançámos. O Movimento é feito de homens, que só a pouco e pouco hão-de eliminar os defeitos que resultam da individualização de que o Movimento ainda enferma. É necessário que cada vez mais actuemos em conjunto.
Acaba de ser formada uma comissão de coordenação política para funcionar junto do governo de Moçambique como garante do espírito do Movimento. Está igualmente constituído um gabinete do MFA para trabalhar junto do Comandante chefe com a mesma finalidade.
Vai ser proposta a oficialização dos representantes regionais do MFA.
Estão em estudo todas as medidas que nos parecem urgentes, se considerarmos as perspectivas novas do 25 de Abril para o Ultramar. Precisamos com urgência das sugestões de todos, da vigilância permanente dos elementos das Forças Armadas, da identificação dos militares com o seu Programa, da “reunião permanente” do Movimento.
Um abraço”.
 
- A Revolução ainda nem começou! - repetia o João.
-Mas o texto refere ideias pouco adequadas ao sentido democrático do Movimento…
-Só que ainda não é tempo de acedermos a essa normalidade… Os textos não podem hostilizar a maioria, mas devem representar passos em frente. Nem sempre é fácil transmitir a todos as ideias essenciais.
-Estou certo que para uns serão passos demasiado longos e para outros serão passos muito tímidos…

 













Os Serviços de Centralização e Coordenação de Informações continuaram a publicar a sua "Resenha Diária", sem qualquer visível alteração. Exactamente com a data do documento do MFA (25 de Maio) saiu esta Resenha!

 

domingo, 12 de maio de 2013

Mensagem a todos os elementos do MFA


Numa noite de longa conversa, quando só restávamos os dois para arrumar as secretárias e fechar as portas, o João interpelou-me, em surdina:


- Acho que nós, por mais discussões que tenhamos e por mais planos que tracemos, não poderemos mudar o rumo geral dos acontecimentos. Moçambique vai ser independente, e nós devemos negociar um calendário razoável para a transferência do poder…

 

- Eu estou de acordo contigo, mas não podemos saltar todos os obstáculos de uma só vez. Nós não estamos aqui para construir a independência de Moçambique. Nós, dadas as circunstâncias em que nos encontramos, queremos apenas afirmar os interesses legítimos do povo português e ajudar a construir uma relação de amizade para o futuro, entre os dois países.

 

- Verdadeiramente, isso depende pouco de nós…

 

- Mas é certo que temos tropas no terreno, milhares de militares portugueses apanhados nesta transição profunda, e a quem devemos uma explicação convincente e um apoio sem hesitações.

 

- É verdade, mas será que estamos a assumir essa mudança, será que estamos preparados para cortar com o passado?

 

- Alguns de nós estão, mas a grandeza do projecto não se compadece com as dúvidas de outros, nem com a oposição de muitos que continuam a deter o comando.

 

- Ou seja, resta-nos gerir o dia-a-dia. E sermos capazes de participar activamente num processo sem grandes convulsões, que garanta o fim da guerra e que conduza ao objectivo lógico deste processo – o nascimento de novos países. Eu ficarei feliz se um dia puder dizer, sem sentir vergonha, que estive em Moçambique, no pós-25 de Abril, e que ajudei a erguer um novo país!

 

- Esse é que deverá ser o nosso propósito!

 

Nestes dois ou três meses a seguir ao 25 de Abril tínhamos dúvidas sobre a forma de conduzir as nossas acções. Não queríamos precipitar roturas nas estruturas militares e administrativas, mas não podíamos admitir que fosse posto em causa o projecto do MFA para as colónias – reconhecimento do direito à independência e dos movimentos de libertação e negociação de um acordo de transição. No dia seguinte à nossa conversa, o João apresentou o seu documento, afirmando que por algum lado devíamos começar.

 

Dizia o seguinte:

 

“Mensagem aos elementos do MFA

 

Moçambique vive num clima especial a Revolução do 25 de Abril. Torna-se necessário que todos os elementos do MFA, todos aqueles que aceitam e adoptam os princípios do seu Programa, desenvolvam uma intensa campanha sobre os seus camaradas não esclarecidos, baseada nos seguintes temas gerais:


Confiança no MFA, suas comissões e delegações.


  1. Pressão e influência do MFA para definição urgentíssima das bases de resolução do problema ultramarino, de obtenção da paz, e de reconhecimento da justa luta dos movimentos emancipalistas.

  2. Necessidade de manter, dentro das perspectivas de Paz, a segurança das tropas e populações, itinerários e actividades económicas sem o que se tornam impossíveis os reabastecimentos e futuras alterações de dispositivo decorrentes de estratégia adequada à paz, ao cessar-fogo e à independência.

  3. Necessidade de manutenção dum alto grau de disciplina e unidade das Forças Armadas a fim de garantir um caminho rápido para soluções justas sem sujeição a manobras reaccionárias, racistas ou alarmistas.

Outras medidas devem ainda ser tomadas:


  1. Esclarecer as tropas naturais da sua situação clara e de que nada devem temer, pois:

a.          Cumprem determinações do estatuto político que vigora actualmente, que impõe obrigatoriedade do serviço militar.

b.          Actuam da única forma possível dentro do contexto político-social, não tendo outra alternativa legal – direito e dever do homem viver segundo a lei que vigora na terra em que se encontra.

c.          Lembrar o ideário dos movimentos emancipalistas, da Organização da Unidade Africana, da Organização das Nações Unidas, acerca dos direitos do Homem, da compreensão pela situação dos africanos que servem nas Forças Armadas Portuguesas e forças militarizadas.


  1. É necessário abordar frontalmente os problemas, não os deixando ficar para especulação entre as tropas, pois isso irá causar alarme, boatos, indisciplina, desmoralização e inoperância.

  2. É necessário aliar a esta informação total e objectiva a politização de todo o pessoal através da acção das delegações das unidades e dos grupos de trabalho nestas organizados, tendo como linhas de acção o diálogo e a crítica aberta, salvaguardando a disciplina e a hierarquia.

  3. A hierarquia deve ser flexível, subtil, aberta e inteligente. Fundamentalmente os comandos devem ir ao encontro das militares, achar em conjunto fórmulas, razões, motivos de moralização, compreensão dos factores da situação que determinam esperança na Paz, serenidade para aguardar todas as diligências que se estão levando a cabo, conhecidas ou secretas, entre as delegações e os governos.

  4. As relações diplomáticas com a Rússia e outros países da Europa do Leste são altamente significativas e indicam bom andamento ao encontro dos pontos de vista das delegações empenhadas em conversações.

  5.  Informar finalmente da necessidade que as Forças Armadas têm, após o cessar-fogo, de continuarem a prestar a sua colaboração de ressurgimento de Moçambique novo e independente, missão honrosa e digna que exige no entanto que as Forças Armadas mantenham desde já o seu prestígio, a sua disciplina e a sua unidade, no sentido de poderem ajudar a manter a ordem, a impedir manobras de reacção que queiram fazer renascer racismos ou tribalismos no intuito de prejudicar o ressurgimento da vontade de facto do Povo Moçambicano que exige a libertação do colonialismo e do perigo do neo-colonialismo. Só Forças Armadas coesas, dignificadas e disciplinadas poderão cumprir o seu dever para com o Povo de Moçambique”.

  6.  

Depois de lido o documento, o João virou-se para mim e disse-me com voz baixa, sem que ninguém notasse: - Fiz isto de um fôlego! É preciso despertar a malta, porque, verdadeiramente, a Revolução ainda nem começou!

 

- Apesar de tudo, João, a nossa mensagem começa a impor-se. Depois do 25 de Abril, a continuação da guerra não faz nenhum sentido…











Acabámos por ter sempre dificuldade em conciliar o conceito de hierarquia nas Forças Armadas com a realidade das relações no seu seio.