sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Acabou o tempo do silêncio…



As comissões regionais do MFA, em especial as que se situavam em zonas mais problemáticas, nunca deixaram de nos transmitir o seu pensamento, o que constituía para nós um enorme apoio e um suporte quase inquestionável às nossas decisões.

Os oficiais do “mato”, melhor que ninguém, sabiam o que se passava no terreno e como as tropas estavam a encarar o evoluir da situação. Tínhamos, por isso, em grande conta, as suas opiniões e as suas recomendações. Eles nunca desistiam de nos enviar mensagens que exprimiam, de forma inequívoca, as suas razões.

Eis uma que recebemos de Mueda, na véspera da reunião dos oficiais de Nampula:



“Esta Comissão vê enorme inquietação que chefes não estão convenientemente informados sobre situação militar e política Cabo Delgado. Teme-se que estejam ser tomadas resoluções não coerentes com gravidade dos factos e contrárias ideário MFA. Tal facto pode provocar cisões graves. Esta Comissão acha que MFA não deve deixar deteriorar situação modo ficar fora nosso controle. Se tiverem ser tomadas decisões graves devem ser oficiais a comandá-las e não deixar situação deteriorar-se ao ponto soldados sentirem não confiar em nós. Tropa combatente em extrema expectativa. Parece que chefes continuam pensar em operações ofensivas. Acha-se que esta não tem qualquer justificação dentro contexto programa MFA. Soldados sentem profundamente situação. Situação real Cabo Delgado não tem outra saída que não seja entendimento com Frelimo mais rápido possível. Consequências qualquer outra atitude ficariam fora nosso controle. Chegou momento grandes decisões enquanto é tempo. Acabou tempo do silêncio cúmplice e cobarde. MFA não pode perder seu ímpeto revolucionário nesta hora de verdade sob pena de enxovalhar Forças Armadas e trair confiança povo. Não queremos voltar a ser marionetas”.



O João lia e relia em voz alta, sem encontrar qualquer coisa que tivesse ficado por dizer.

- A Revolução está a chegar…

Nós sabíamos isso perfeitamente. Mas a mensagem de Mueda causou em nós uma impressão duradoura. A verdade é que não podíamos ficar com ela para nós. No dia seguinte, seguiu para Lisboa, para as outras Comissões Regionais e para o Comando, acompanhada da seguinte nota:



“Junto envio fotocópia duma mensagem da Comissão Regional de Mueda à qual este Gabinete adere sem reservas.

É na verdade preocupante e intolerável a situação de impasse a que se está chegando. Sabe-se que, existindo uma evidente contradição entre os objectivos que a política pretende atingir e a realidade que existe em Moçambique, se irá dar uma ruptura dentro das Forças Armadas. E somos de parecer que quanto mais abaixo na escala hierárquica essa ruptura acontecer piores virão a ser as consequências. De qualquer modo está iminente uma tomada de posição dos escalões inferiores”.

 

- Eles vão escutar a voz da razão, e nós nunca poderemos desistir de levar os factos ao seu conhecimento.

Era esta a conclusão unânime!



quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Reconhecer os direitos dos povos...



À medida que os dias passavam, mais se acentuava uma sensação de desconforto perante o evoluir da situação. Nós sabíamos muito pouco sobre as conversações, para além daquilo que era do conhecimento público. As notícias do que se passava no terreno não era de molde a tranquilizar-nos, tanto da parte das populações, brancas e negras, como das tropas. Todos pressentiam um fim de época, uma mudança profunda de vida, mas ninguém se atrevia ainda a assumir as rupturas necessárias.

Os mais activos, ainda assim, eram os representantes de minorias brancas inimigas do processo iniciado com o 25 de Abril, conducente à independência de Moçambique fora do seu controle. Os trabalhadores concentrados nas zonas urbanas imitavam os seus congéneres de Portugal, fazendo greves e lutando pela melhoria das suas condições de trabalho; nas zonas rurais levantavam-se revoltas locais, sem qualquer plano de conjunto. Por sua vez, os militares ansiavam por uma palavra que confirmasse o que todos começavam a considerar inevitável – o acordo com a Frelimo para a transferência de poder.

No meio destas tensas expectativas, nós, membros do MFA local, não podíamos permanecer acomodados às diminutas notícias das negociações e ao lento desenvolvimento do processo. O mês de Julho foi um período de grande actividade, que nos conduziu a uma firme intervenção no rumo dos acontecimentos. Nós não podíamos deixar correr o tempo, pois sabíamos que corria contra nós. A situação no terreno impunha-nos uma série de tomadas de posição, até que Lisboa aceitasse a lógica que decorria do 25 de Abril e do Programa do MFA – o reconhecimento do direito dos povos à independência e, no caso de Moçambique, a aceitação da Frelimo como interlocutor privilegiado.

Era esse o sentido da convocatória para uma grande reunião de oficiais em Nampula, no dia 2 de Julho, ao fim da tarde. Eis os seus termos:

 

«Convocatória

1. Considerando:

a. Que o Gabinete do MFA junto do Comando-Chefe, além das suas funções, vem exercendo por acumulação as funções da Comissão Regional (de Nampula) e que esta prática se tem mostrado inconveniente;

b. Que na reunião efectuada em Nampula com todas as Comissões Regionais foi considerado, face à situação real em Moçambique, que era da maior urgência e necessidade sair do impasse político a que o Governo chegou nas conversações com o PAIGC e com a FRELIMO;

c. Que na mesma reunião houve unanimidade em considerar que tal impasse só seria ultrapassado se o Governo português reconhecesse o direito dos povos à independência;

d. Que há necessidade de informar concreta e esclarecidamente todos os escalões militares e do Governo do pensamento da maioria dos elementos afectos às suas decisões, para que estas sejam tomadas na posse de todos os dados e consequentemente perfeitamente adaptadas às realidades;

e. Que em reunião efectuada em Nampula em 1 de Julho com oficiais do MFA foi aprovado por unanimidade que se deveria pôr à consideração e votação de todos os oficiais da guarnição de Nampula, reunidos em plenário, a seguinte moção:

“Que se deverão reiniciar as conversações com a FRELIMO aceitando os seguintes princípios:

 - Reconhecimento prévio do direito à independência do povo de Moçambique

 - Reconhecimento da FRELIMO, no actual contexto político, como representante mais válido do povo de Moçambique”.

2. Convocam-se todos os oficiais da Guarnição de Nampula para reunirem em plenário, no cinema militar, pelas 18 horas de hoje, dia 2 de Julho de 1974, com a seguinte agenda de trabalhos:


a. Eleição da Comissão Regional de Nampula.

b. Discussão e votação da moção referida em 1.e.»



- Esta fase da nossa intervenção vai levar-nos a uma conquista definitiva, correspondente aos nossos anseios, não sendo por isso tempo de desistência ou fraquezas. Algum dia a revolução iria chegar aqui… - O João falava com calma, mas com muita firmeza.

Nós sentíamos que estava a chegar a altura de fazermos o que devíamos fazer.



quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

A revolta da Companhia




Depois de dois meses de indecisões, as unidades espalhadas pelo território exibiam sintomas de grande desequilíbrio psicológico. Isto era principalmente visível naquelas que se situavam em zonas difíceis ou cujo comando carecia de qualidade e competência.

Os oficiais do Gabinete do MFA começaram a ser solicitados para se deslocarem a estas unidades, tentando evitar situações limite, de grave indisciplina ou outras atitudes comprometedoras. Nos últimos dias de Junho soubemos que a Companhia de Luatize, no Niassa, se recusava a fazer acções ofensivas, por, segundo diziam, não quererem mais combater contra os seus irmãos da Frelimo. A guarnição era, na quase totalidade, constituída por elementos do recrutamento de Moçambique, portanto, negros.

Desta vez calhou-nos, a mim e ao major Vieira Monteiro, a missão delicada de ir ao encontro destes militares e explicar-lhes o inexplicável, ou seja, não lhes dar razão, sabendo que eles a tinham.

Foi uma jornada difícil, de muitos equilíbrios, de posições comedidas, tanto quanto possível esclarecedoras da situação, mas sem resvalar para qualquer tipo de compromisso definitivo com um lado ou o outro. Nós sabíamos que seríamos bem aceites junto dos soldados da Companhia, mas olhados com algumas desconfiança junto dos comandos do Sector de Vila Cabral (Niassa). Não podíamos por isso demonstrar dúvidas sobre o caminho a fazer, mas sem que isso pusesse em causa os princípios do comando e da hierarquia.

O relatório que elaborámos reflecte esta orientação – concordância no essencial, mas exigência de comportamentos adequados à situação. Todos apoiaram, também porque ninguém tinha boas soluções!

Eis o relatório:

“Relatório da visita a Luatize

1. Em 29 de Junho de 1974 efectuou-se:

    a) Reunião no Sector A com a presença de:

        - Comandante do Sector A

        - Chefe do Estado-Maior do Sector A

        - Comandante do Batalhão de Valadim

        - Oficial de operações do Sector A

        - Oficial de Acção Psicológica do Sector A

        - 2 oficiais do MFA

b) O Comandante do Sector A expôs os antecedentes da Companhia e as razões que no seu entender levaram à actual situação.

c) O Comandante interino do Batalhão de Valadim expôs as conclusões da sua visita a Luatize feita dois dias antes, já após o incidente.

d) O chefe do Estado-Maior fez notar que a posição do Quartel-General era categórica ao ordenar a intensificação e agressividade da actividade operacional.

e) O Comandante do Sector e um dos elementos do MFA expuseram a indicação verbal feita pelo Chefe do Estado-Maior do Quartel-General no sentido de se poder comunicar à Companhia de Luatize que não faria actividade operacional ofensiva.

f) O Comandante do Batalhão referiu que na sua visita, para além de auscultar os anseios dos militares de Luatize ficara assente com eles que fariam apenas actividades de segurança e defensiva.

g) O Comandante de Sector referiu que propusera e lhe parecia a melhor solução, retirar pura e simplesmente a Companhia de Luatize, desde que fosse substituída e as condições de vida do aquartelamento fossem nitidamente melhoradas.

h) Todos os oficiais referiram o antecedente perigoso e de consequências imprevisíveis que constituía o facto de se dizer à Companhia que ficaria dispensada de fazer operações ofensivas. Era evidente que toda a Região Militar, em cadeia, se recusaria a efectuar essa actividade.

i) Os dois oficiais do MFA, reunidos mais tarde, resolveram, em face dos novos factores em causa:

- Ir a Luatize na 2ª feira, dia 1 de Julho;

- Não prometer nada à Companhia, a não ser expor a quem pudesse decidir, todos os problemas que eles apresentassem;

- nada mais fazer se não auscultar.

j) No próprio dia 29 comunicaram esta decisão ao Comandante de Sector.



2. Em 1 de Julho de 1974:

Os dois oficiais do MFA visitaram a Companhia aquartelada em Luatize.

Os militares (oficiais, sargentos e praças) da Companhia apresentaram os seguintes problemas:

   a) Não desejarem efectuar mais operações ofensivas às bases da Frelimo, por não desejarem combater mais os seus irmãos.

   b) Que viviam em precárias condições, em virtude de:

     1) Falta de ligações terrestres com outras unidades, o que provoca:

       - Reabastecimento muito deficiente, havendo carências de combustíveis, géneros e artigos de cantina;

       - Dificuldades no gozo das licenças disciplinares. As poucas gozadas implicam o fretamento de um táxi aéreo pelos interessados (1.100$00 por cabeça);

       - A agudização do problema sexual, pois não existem na área, populações (há militares que há mais de um ano não vêem uma mulher);

       - Dificuldades no processamento da substituição do pessoal, mesmo quando o substituto já está nomeado e aguarda transporte em Vila Cabral;

       - Falta de assistência médica (itinerância duas vezes por mês) agravada pela dificuldade de frequência das consultas externas;

      2) Instalações improvisadas (a maior parte delas são palhotas) determinam a incomodidade e falta de higiene, o que cria condições para a proliferação de doenças.

      3) Material de aquartelamento é manifestamente insuficiente.

  c) Desejo unânime de que a Companhia saia de Luatize.


3. Face aos problemas apresentados somos de parecer que:

As condições actuais são susceptíveis de criar graves problemas de ordem disciplinar, insubordinação ou mesmo rebelião, caso a Subunidade continue aquartelada em Luatize.

4. Para resolver a questão propõe-se:

a) A retirada pura e simples da Companhia de Luatize.

b) Se, por condicionamentos tácticos, for considerado impossível o preconizado na alínea anterior, torna-se imprescindível, a um prazo muito curto, estabelecer ligações terrestres normais com Luatize (tornar operacional a picada que liga a Nova Viseu) e melhorar as condições de vida do aquartelamento, com vista à substituição da Companhia por outra”.

 

Quando leu o relatório, o João não pôde deixar de comentar:

- A que ponto se deixou degradar a situação militar! Como se poderia continuar este caminho, enviando companhias inteiras para locais destes, sem ligações, sem assistência, sem apoio, entregues a si mesmas? Como foi possível?

E todos nós ficámos sem palavras…


quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Moçambique – o MFA democratiza-se

 

Ainda se sentiam os ecos da reunião das Comissões Regionais do MFA em Nampula em 26 de Junho, e já a hierarquia, de acordo com as directivas saídas daquela reunião, se apressava a cumprir as orientações superiores, no sentido da constituição de comissões regionais do MFA através de um processo democrático.

Por exemplo, em Lourenço Marques, o coronel Mário de Lima, chefe do Estado-Maior do Comando Territorial do Sul, assinava a seguinte directiva para a “Constituição da Comissão Regional do MFA”, datada de 28 de Junho e enviada a todas as unidades e estabelecimentos militares:

“Torna-se necessário proceder à eleição da Comissão Regional do Movimento das Forças Armadas, entre oficiais da guarnição militar de Lourenço Marques, tendo em vista a dinamização local do Movimento. Nestas condições, encarrega-me o Exmo. coronel comandante do CTS de solicitar a V.Exª. a difusão por todos os oficiais dessa unidade ou estabelecimento militar do seguinte:

No próximo dia 1 de Julho às 18H00 a sala de cinema do Clube Militar encontra-se à disposição dos oficiais milicianos da guarnição de Lourenço Marques; o objectivo é a eleição de um seu representante para inclusão na Comissão Regional.

O oficial mais antigo assumirá a presidência da reunião e nomeará dois oficiais para a constituição da mesa de presidência. A eleição seguirá moldes democráticos; os oficiais que, por motivos de serviço ou outros não puderem estar presentes, exercerão o seu direito de voto através do oficial mais antigo da sua unidade ou estabelecimento que assistir; este oficial deverá ter em poder documento comprovativo da ‘procuração’, devidamente assinado.

O presidente da reunião elaborará acta sumária, que entregará no CTS.

No próximo dia 1 de Julho às 20h30 a sala do cinema do Clube Militar encontra-se à disposição dos oficiais do quadro permanente de Lourenço Marques, para eleição de dois oficiais, a incluir na Comissão Regional.

O sistema de eleição seguirá precisamente os moldes indicados no número anterior.

O presidente da reunião elaborará acta sumária, que entregará no CTS.

A Comissão Regional a constituir terá a seguinte formação:

- Exército: 2 oficiais do QP

                  1 oficial do QC

- Armada: 1 oficial do QP

- F. Aérea: 1 oficial do QP

                1 oficial do QC (será também representante da Armada – reserva naval).

Esta Comissão ligar-se-á com a Comissão existente em Nampula e com as restantes Comissões Regionais. Visará fundamentalmente conservar o espírito do Movimento das Forças Armadas e contribuir para a coesão e esclarecimento de todos os militares”.   

 

Segundo soubemos, no dia aprazado, efectuaram-se as reuniões que decorreram na melhor ordem e elegeram por voto secreto e universal, os representantes do Exército à Comissão Regional.

Esta foi seguramente, uma das primeiras experiências democráticas do MFA organizada pela hierarquia. Se por um lado era inevitável um certo compromisso com as orientações militares do comando, que aliás sempre defendemos a partir de Nampula, por outro abriam-se verdadeiras oportunidades de cooperação e de entendimento, tendo em conta os objectivos que começavam a apresentar-se como comuns, face ao evoluir da situação. Todos queríamos uma solução para o problema de Moçambique e todos acreditávamos que ela passava por uma negociação política com a Frelimo. As últimas resistências iam-se atenuando, pela inevitabilidade do resultado final.

O João procurava aproveitar a oportunidade, insistindo:

- Nós devemos, agora que começamos a ter a força da representação democrática, fazer exigências mais concretas e mais incisivas, não podemos continuar nesta indefinição que só agrava as condições da nossa acção e compromete as relações futuras com os novos governantes de Moçambique.



quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Moçambique – onde está o MFA?


 

A organização do MFA em Moçambique fez-se lentamente. As distâncias eram enormes, as deslocações nem sempre fáceis, a rotina muito pesada. Os elementos que tinham constituído as comissões do Movimento dos Capitães eram relativamente poucos e, como acontecia em todo o lado, estavam sujeitos a mudanças de situação e de local, quer dentro do território, quer por regresso a Portugal.

A reunião das comissões regionais em Nampula nos finais de Junho impulsionou a sua reconstituição em moldes democráticos, o que foi aceite, sem grande oposição, pela hierarquia, uma vez que foram acautelados os limites da sua própria actuação.

Vejamos o exemplo da comissão regional de Lourenço Marques que, depois do regresso dos seus delegados, elaborou um relatório de situação, cujas principais linhas eram as seguintes:

 

«Documento de trabalho

1)   Responsabilidade política do MFA

Na intervenção do MFA na vida pública portuguesa e do respectivo programa é manifesta a responsabilidade política que o Movimento decidiu assumir, face à situação caótica criada por 48 anos de coarctação das liberdades fundamentais, respectiva incapacidade de definição de uma “concepção de estar no mundo” e estudo sério da sua viabilidade.

A solução política para treze anos de guerra, o “saneamento da actual política interna e das instituições tornando-as pela via democrática indiscutíveis representantes do povo português” e a substituição do sistema político então vigente, “a processar sem convulsões internas que afectem a paz, o progresso e o bem-estar da Nação” constituem termos de responsabilização política total pela solução democrática da vida pública portuguesa. Responsabilidade política – essência do próprio Movimento das Forças Armadas – que obriga à adopção de todas as medidas e à congregação de todos os meios e esforços susceptíveis de concretizarem os princípios a que publicamente se subordinaram a partir do 25 de Abril.

 

2)   Evolução da situação política (Moçambique)

A evolução política começou por definir-se pela hesitação e perplexidade com que as Forças Armadas reagiram à eclosão dos acontecimentos em Lisboa. Assim:

- o ex-Governador Geral e a generalidade das forças mais reaccionárias do antigo regime permitiram-se manifestações de força, cujas circunstâncias ainda estão por esclarecer;

- não foram tomadas medidas de segurança na guarnição de Lourenço Marques, tendo-se verificado a ausência generalizada dos comandantes das unidades militares em 27 de Abril de 1974, antes da transmissão de poderes – enquanto o general Diogo Neto se dirigia a Lourenço Marques com forças paraquedistas;

- indefinição da situação na capital política, não controle dos órgãos de comunicação social, sistemática provocação das forças reaccionárias, impasse legalista e não reconhecimento da falta de representatividade da Assembleia Legislativa;

- reuniões de extrema direita no Estádio do Benfica, em que foram apresentadas sugestões de intervenção armada, com presença de elementos de forças para-militares, identificados;

- proliferação de boatos e especulação, o que pôs em causa o prestígio do MFA.

As primeiras medidas reflectiram a ausência de meios indispensáveis ao controlo da situação, tendo revelado a sua ineficácia a curto termo:

- a integração pouco realista da PIDE/DGS nos SIM, enquadrada apenas por um oficial superior e alguns elementos da Polícia Militar; respectivo início de debandada de elementos notoriamente mais comprometidos;

- constituição de uma comissão ad-hoc para a informação pública sem directrizes seguras e recursos humanos adequados, determinando posições pouco esclarecidas, quer dos órgãos de informação, quer por parte dos seus profissionais, generalizando a confusão.

O desenrolar do processo veio confirmar as dificuldades anteriores na definição de força pública:

- não intervenção sobre os civis, identificados, que colocaram ou ajudaram ex-elementos da PIDE/DGS a sair de Moçambique;

- incidentes generalizados em várias cidades, sem intervenção clara e oportuna;

- casos de polícia, de tipo racial, constituindo escândalo público, que aguardam ainda qualquer espécie de esclarecimento;

- acção de agitadores extremistas durante as greves, oportunamente identificados, desvirtuando o seu sentido e utilizando-as para fins de confrontação rácica.

Como consequência desta falta de projecção política e de poder, assistiu-se à implantação de um clima de pânico e proliferação do boato, não denunciados especificamente e/ou através da afirmação política do MFA. Esta situação revelou-se tanto mais grave, quando:

- se sentia a inexistência de um Governo de acordo com o Programa do MFA – sendo todos os elementos governativos comprometidos com o antigo regime;

- as estruturas governativas se apostavam em bloquear a aplicação rápida do Programa do MFA, prejudicando a espontaneidade da participação pública, nos diferentes sectores da vida moçambicana, e solidificando posições reaccionárias que resistiram ao abalo do 25 de Abril;

- o clima de pânico e boato encontrou apoio, ou foi gerado, em todos os sectores da administração pública e privada, sem contrapartida a nível informativo e formativo, quer dos meios de informação, quer pela força do exemplo, vindo a tornar a opinião pública receptiva, e em casos bastante aderente, à extrema direita e aos seus processos violentos.

 

3. Análise da situação actual

A actividade de elementos ligados às forças mais reaccionárias evidencia-se por:

- agressões a elementos dos órgãos de informação que tentam divulgar e projectar os resultados da “operação Zebra”;

- reuniões em locais detectados, eventualmente em ligação com ex-elementos da PIDE/DGS no exterior, e movimentação, com intenções presumíveis, de elementos afectos a outras forças reaccionárias, designadamente ao engenheiro Jorge Jardim;

- um atentado pessoal à vida do advogado Pereira Leite (Democrata), sem consequências, mas abrindo triste precedente;

- a instauração de um processo de terror urbanizado, que vai da ameaça de bomba em instalações da imprensa local, à ameaça da vida de conhecidas personalidades “democráticas” e respectivas famílias.

Tudo isto, onde a minoria social sempre contou com uma repressão pronta ao seu serviço – que com descrição pretendia desconhecer – e onde, com a agressividade e violência das relações nas sociedade desequilibradas e coloniais, as forças mais activas se preparam para suprir faltas que consideram indispensáveis à sua sobrevivência, enquanto privilegiadas.

Os precedentes estão abertos.

Na dificuldade de irem mais longe com os seus propósitos, parecem preparar-se em Lourenço Marques Não há conhecimento público de quaisquer esclarecimentos produzidos pelas autoridades policiais.

A acrescer:

- o ex-director do PIDE/DGS, Pereira de Castro, com outros elementos dessa polícia política, foram privilegiados com tratamento condizente com a sua situação de prisioneiros acusados de crimes;

- a infelicidade dos dois episódios em que a 8ª Companhia de Comandos se viu envolvida;

- Joana Simeão declara, em Lisboa, as autoridades portuguesas responsáveis pela “sorte” das tropas africanas do nosso Exército, e convoca para Nampula o Congresso das etnias africanas, com a presença de elementos das nossas tropas;

- e o FICO, em comunicado público, convoca reuniões de ex-combatentes das nossas Forças Armadas, enquanto que nessa qualidade, e em manifesto envolvimento em campos que já lhes não devem competir, apelando para vínculos da exclusiva competência das Forças Armadas.

Concluindo:

- a existência de uma sociedade colonial de estrutura reaccionária, a que se ampara o desequilíbrio social;

- o progressivo desenvolvimento de uma ideologia de extrema-direita, violenta e em terreno fértil;

- o abandono em que se deixou a correlação de forças políticas em presença, não obviando à vantagem episódica da reacção;

- a previsível sedução por soluções aventureiristas do problema moçambicano, em que uma sociedade despolitizada pode ser facilmente envolvida;

- o “deixar encostar” as pessoas ao seu instinto de sobrevivência, através da exploração “de manobras reaccionárias, racistas e alarmistas”;

- a falta de tomadas de posição inequívocas face a situações reaccionárias, manifestas agressões ideológicas e já físicas, comprometendo a curto prazo:

        - uma solução política e pacífica do problema moçambicano;

        - a convivência democrática;

        - e o papel que as Forças Armadas, aqui e agora, são hoje chamadas a desempenhar».

 

Seguia-se, após esta longa apreciação da situação em Moçambique, um conjunto de propostas, tanto sobre a “expressão pública do MFA”, como da sua própria organização e reconversão, não deixando de referir, por fim:

“Urgente definição das bases de resolução do problema colonial, obtenção da paz e reconhecimento iniludível do direito dos povos à independência”.

 

O João não tinha muito a acrescentar a esta análise da situação, que vinha de onde menos a esperávamos. Depois de a ler atentamente, aconselhou o seu conhecimento por todo o MFA, incluindo uma cópia para Lisboa.

- Pode ser que os nossos camaradas tenham um momento para reflectir sobre o que aqui se tem vivido, e possam tomar consciência de quanto precisamos de andar depressa!