sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Acabou o tempo do silêncio…



As comissões regionais do MFA, em especial as que se situavam em zonas mais problemáticas, nunca deixaram de nos transmitir o seu pensamento, o que constituía para nós um enorme apoio e um suporte quase inquestionável às nossas decisões.

Os oficiais do “mato”, melhor que ninguém, sabiam o que se passava no terreno e como as tropas estavam a encarar o evoluir da situação. Tínhamos, por isso, em grande conta, as suas opiniões e as suas recomendações. Eles nunca desistiam de nos enviar mensagens que exprimiam, de forma inequívoca, as suas razões.

Eis uma que recebemos de Mueda, na véspera da reunião dos oficiais de Nampula:



“Esta Comissão vê enorme inquietação que chefes não estão convenientemente informados sobre situação militar e política Cabo Delgado. Teme-se que estejam ser tomadas resoluções não coerentes com gravidade dos factos e contrárias ideário MFA. Tal facto pode provocar cisões graves. Esta Comissão acha que MFA não deve deixar deteriorar situação modo ficar fora nosso controle. Se tiverem ser tomadas decisões graves devem ser oficiais a comandá-las e não deixar situação deteriorar-se ao ponto soldados sentirem não confiar em nós. Tropa combatente em extrema expectativa. Parece que chefes continuam pensar em operações ofensivas. Acha-se que esta não tem qualquer justificação dentro contexto programa MFA. Soldados sentem profundamente situação. Situação real Cabo Delgado não tem outra saída que não seja entendimento com Frelimo mais rápido possível. Consequências qualquer outra atitude ficariam fora nosso controle. Chegou momento grandes decisões enquanto é tempo. Acabou tempo do silêncio cúmplice e cobarde. MFA não pode perder seu ímpeto revolucionário nesta hora de verdade sob pena de enxovalhar Forças Armadas e trair confiança povo. Não queremos voltar a ser marionetas”.



O João lia e relia em voz alta, sem encontrar qualquer coisa que tivesse ficado por dizer.

- A Revolução está a chegar…

Nós sabíamos isso perfeitamente. Mas a mensagem de Mueda causou em nós uma impressão duradoura. A verdade é que não podíamos ficar com ela para nós. No dia seguinte, seguiu para Lisboa, para as outras Comissões Regionais e para o Comando, acompanhada da seguinte nota:



“Junto envio fotocópia duma mensagem da Comissão Regional de Mueda à qual este Gabinete adere sem reservas.

É na verdade preocupante e intolerável a situação de impasse a que se está chegando. Sabe-se que, existindo uma evidente contradição entre os objectivos que a política pretende atingir e a realidade que existe em Moçambique, se irá dar uma ruptura dentro das Forças Armadas. E somos de parecer que quanto mais abaixo na escala hierárquica essa ruptura acontecer piores virão a ser as consequências. De qualquer modo está iminente uma tomada de posição dos escalões inferiores”.

 

- Eles vão escutar a voz da razão, e nós nunca poderemos desistir de levar os factos ao seu conhecimento.

Era esta a conclusão unânime!



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