quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Reconhecer os direitos dos povos...



À medida que os dias passavam, mais se acentuava uma sensação de desconforto perante o evoluir da situação. Nós sabíamos muito pouco sobre as conversações, para além daquilo que era do conhecimento público. As notícias do que se passava no terreno não era de molde a tranquilizar-nos, tanto da parte das populações, brancas e negras, como das tropas. Todos pressentiam um fim de época, uma mudança profunda de vida, mas ninguém se atrevia ainda a assumir as rupturas necessárias.

Os mais activos, ainda assim, eram os representantes de minorias brancas inimigas do processo iniciado com o 25 de Abril, conducente à independência de Moçambique fora do seu controle. Os trabalhadores concentrados nas zonas urbanas imitavam os seus congéneres de Portugal, fazendo greves e lutando pela melhoria das suas condições de trabalho; nas zonas rurais levantavam-se revoltas locais, sem qualquer plano de conjunto. Por sua vez, os militares ansiavam por uma palavra que confirmasse o que todos começavam a considerar inevitável – o acordo com a Frelimo para a transferência de poder.

No meio destas tensas expectativas, nós, membros do MFA local, não podíamos permanecer acomodados às diminutas notícias das negociações e ao lento desenvolvimento do processo. O mês de Julho foi um período de grande actividade, que nos conduziu a uma firme intervenção no rumo dos acontecimentos. Nós não podíamos deixar correr o tempo, pois sabíamos que corria contra nós. A situação no terreno impunha-nos uma série de tomadas de posição, até que Lisboa aceitasse a lógica que decorria do 25 de Abril e do Programa do MFA – o reconhecimento do direito dos povos à independência e, no caso de Moçambique, a aceitação da Frelimo como interlocutor privilegiado.

Era esse o sentido da convocatória para uma grande reunião de oficiais em Nampula, no dia 2 de Julho, ao fim da tarde. Eis os seus termos:

 

«Convocatória

1. Considerando:

a. Que o Gabinete do MFA junto do Comando-Chefe, além das suas funções, vem exercendo por acumulação as funções da Comissão Regional (de Nampula) e que esta prática se tem mostrado inconveniente;

b. Que na reunião efectuada em Nampula com todas as Comissões Regionais foi considerado, face à situação real em Moçambique, que era da maior urgência e necessidade sair do impasse político a que o Governo chegou nas conversações com o PAIGC e com a FRELIMO;

c. Que na mesma reunião houve unanimidade em considerar que tal impasse só seria ultrapassado se o Governo português reconhecesse o direito dos povos à independência;

d. Que há necessidade de informar concreta e esclarecidamente todos os escalões militares e do Governo do pensamento da maioria dos elementos afectos às suas decisões, para que estas sejam tomadas na posse de todos os dados e consequentemente perfeitamente adaptadas às realidades;

e. Que em reunião efectuada em Nampula em 1 de Julho com oficiais do MFA foi aprovado por unanimidade que se deveria pôr à consideração e votação de todos os oficiais da guarnição de Nampula, reunidos em plenário, a seguinte moção:

“Que se deverão reiniciar as conversações com a FRELIMO aceitando os seguintes princípios:

 - Reconhecimento prévio do direito à independência do povo de Moçambique

 - Reconhecimento da FRELIMO, no actual contexto político, como representante mais válido do povo de Moçambique”.

2. Convocam-se todos os oficiais da Guarnição de Nampula para reunirem em plenário, no cinema militar, pelas 18 horas de hoje, dia 2 de Julho de 1974, com a seguinte agenda de trabalhos:


a. Eleição da Comissão Regional de Nampula.

b. Discussão e votação da moção referida em 1.e.»



- Esta fase da nossa intervenção vai levar-nos a uma conquista definitiva, correspondente aos nossos anseios, não sendo por isso tempo de desistência ou fraquezas. Algum dia a revolução iria chegar aqui… - O João falava com calma, mas com muita firmeza.

Nós sentíamos que estava a chegar a altura de fazermos o que devíamos fazer.



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