quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

À pocura do cessar-fogo!



Para nós estava claro o rumo - as conversações com a Frelimo deviam conduzir a um cessar-fogo. Pela forma como a política em Portugal se ia desenvolvendo, com duas posições antagónicas sobre a questão colonial, temíamos o pior. Portanto, na nossa perspectiva, não devíamos deixar o menor espaço de manobra aos negociadores. O cessar-fogo era uma exigência das tropas e nossa. A primeira mensagem desse dia (11 de Julho) foi dirigida aos nossos camaradas de Lisboa – deviam preparar-se para as consequências de um fracasso!

“Do Gabinete do MFA para o MFA Lisboa

1. Factores diversos dos quais avultam anseios, propaganda, mentalidade novas tropas vindas Metrópole, continuação operações Frelimo, exploração contradições, retraimento tropas naturais, essencialmente aspiração comum todos militares verem fim guerra e definição nova missão acordo programa MFA, lei país, tudo concorre: baixo moral tropas Moçambique capaz desencadear processo irreversível desprestigiante e incontrolável.

2. Caso negociações Frelimo não levem imediato cessar-fogo todos estes factores se agudizarão podendo resultar crise Forças Armadas consequências muito graves.

3. Assim há necessidade absoluta tornar frutíferas próximas e urgentes conversações Frelimo.

4. Através comissões regionais MFA temos notícias reacções inconvenientes parte tropas se conversações se malograrem”.

 

Mas não podíamos deixar de fazer o contraponto junto dos nossos camaradas das comissões regionais. Eles deviam estar preparados, assim como as tropas das suas áreas, para todas as eventualidades, mantendo a confiança nos negociadores do MFA e na sua capacidade de ultrapassar os obstáculos. Por isso seguiu também a segunda mensagem:

“Do Gabinete do MFA para as Comissões Regionais:

Notícias colhidas pessoalmente Lisboa indicam bom andamento para solução problema Moçambique próximas conversações, sentido estabelecimento cessar-fogo. MFA Lisboa absolutamente conhecedor situação Moçambique, determinado resolver problema. Transmitimos confiança profunda sua actuação. Apelamos vossa inteligência, bom senso, evitar atitudes prejudiciais objectivos todos pretendemos. Complexidade problema impede conhecimento público todas diligências efectuadas ou a efectuar. Pretendemos comunicar convicção MFA está mais atento que nunca. Actividade militar imprescindível salvaguarda segurança pessoas, bens, vias de comunicação. Missão nova virá ser definida Forças Armadas. Colaborar construção Moçambique só possível se Forças Armadas mantiverem disciplina, respeito mútuo, coesão. Comissões Regionais devem visitar urgente unidades, transmitir confiança MFA, sua atenção, conhecimento profundo problema, necessidade manter disciplina. Inconveniente, desastroso, insensato, pouco inteligente, atitudes irreflectidas, apesar parecer irem encontro anseios todos militares”.

 

- Estamos aqui emparedados entre as tropas que exigem urgência e os negociadores que gostariam de tempo - observava o João, analisando as duas mensagens. – Mas nem uns vão ter o tempo que talvez precisassem, nem os outros verão chegar tão cedo o cessar-fogo…

- São as contingências da situação que encontrámos. Mas ninguém em Lisboa ficará indiferente a este apelo que colocamos nas suas mãos!



Sem comentários:

Enviar um comentário