quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

As conversações com a Frelimo


 

A lentidão das negociações deixava-nos exasperados. Os dias passavam, os problemas surgiam de todos os lados, nós corríamos como baratas tontas a colar remendos. Todos os dias terminávamos exaustos, sem conseguirmos vislumbrar qualquer solução. Ninguém tinha dúvidas – a solução não estava nas nossas mãos, a solução tinha que vir de Lisboa!

Só nos faltava dizer a Lisboa como deviam fazer. As nossas mensagens eram progressivamente mais radicais, mais angustiantes, por vezes com pouco sentido. Mas ninguém melhor do que nós conhecia os problemas concretos – a agitação das tropas, as conspirações de muita gente inconformada, o perigo de surgirem soluções sem a devida preparação.

Foi este o contexto que nos levou a explicar, com detalhe, a solução possivelmente menos gravosa. Devemos reconhecer que não dominávamos afinal toda a realidade, e não conhecíamos muito bem a Frelimo.

A proposta seguiu para Lisboa, mas desconheço, ainda hoje, se ela foi lida por alguém. Nem sei dizer se foi melhor assim ou não, qualquer que tivesse sido o seu destino.

Eis a nossa proposta para as conversações com a Frelimo: 

 

“Gabinete do Movimento das Forças Armadas / CCM

Proposta de conversações com a Frelimo


1. Portugal reconhece o Direito à Independência do Povo de Moçambique e a Frelimo como único interlocutor válido.

2. Da premissa 1. não será dado conhecimento público por qualquer das delegações.

Pretende-se evitar:

- Tentativas imediatas de reacção em Moçambique e até em Angola;

- Actuação emocional da minoria branca e outras comunidades, ainda com meios bélicos em seu poder.

Tem-se em vista um período de actuação no sentido de consciencializar e ganhar posição de força nos lugares susceptíveis de confrontos e alteração da ordem pública.

3. Acorda-se nesta base um cessar-fogo tácito que apenas será conhecido, como partindo de cima, até um nível de comando a determinar.

Pretende-se:

- Ganhar liberdade de manobra das Forças Armadas Portuguesas para a deslocação de efectivos.

Não relacionar as conversações com o cessar-fogo para impedir especulações. O cessar-fogo deve apresentar-se como surgindo de baixo para cima, da vontade dos soldados portugueses e dos combatentes da Frelimo. Por isso se julga só dever chegar este plano ao conhecimento de determinado nível de comando.

4. As Forças Armadas Portuguesas retiram para os centros populacionais, onde poderão:

- Garantir a segurança das populações;

- Evitar conflitos.

O maior perigo que se apresenta para o futuro de Moçambique é o confronto de grupos, provocado pela reacção, podendo esta ser interna ou externa. As F.A. necessitam então de evitar essa possibilidade. Daí a sua deslocação para os centros populacionais. Isto permitirá:

- O desencorajamento da reacção;

- O desmantelamento efectivo das forças paramilitares e outras;

- O controle dos civis armados;

- O domínio da situação, especialmente no Sul do território.

5. A Frelimo e as Forças Armadas Portuguesas confraternizam, primeiro nos quartéis do mato, depois nas pequenas povoações, finalmente nas cidades.

A confraternização parte de baixo, e isso “obrigará” o Governo Português a não impedir a Frelimo de fazer a sua propaganda.

6. A Frelimo faz a sua propaganda política legal, baseada no cessar-fogo de facto.

A propaganda do ideário da Frelimo visará:

- Desfazer receios;

- Conquistar adesões;

- Consciencializar as populações a fim de colaborarem para se evitar:

         - Confrontos;

         - Vinganças

         - Paragens de trabalho;

         - Outros perigos.

7. Deverá ser marcada nova data para conversações.

Os condicionalismos do momento dirão quando será propício o anúncio público de 1.” 



O João também participou na elaboração desta proposta. Não tinha a certeza (ninguém tinha) que este fosse o melhor caminho, mas era, pelo menos, um caminho…

- Ou descobrimos uma forma inteligente de lidar com tudo isto, ou seremos apanhados pelos acontecimentos. Infelizmente parece-me muito tarde para que a nossa proposta tenha alguma hipótese de ser considerada. Vamos ter que nos preparar para o pior…

 

2 comentários:

  1. Este post do coronel Aniceto Afonso, o seu pormenor e clareza como apresenta a questão, tem o maior interesse para se ir construindo a história da Descolonização de Moçambique. Pelos vistos houve tentativas para se fazer a mudança com base numa metodologia que mesmo agora considero que se devia ter seguido.

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  2. Post de excelente qualidade e minucia como tal um documento com lugar na História. Ele alerta para o que aconteceu em 7 de Setembro, com as consequências que todos (?) conhecemos. Gostaria de relembrar uma imagem que nunca me sairá da memória. Um militar a chorar com a G3 apontada para o chão porque ao tentar entrar no rádio clube uma mãe segurou no filho bébé e pô-lo junto ao cano da G3 como se fosse um cravo.

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