quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Evitar o caos...

 


Estávamos a 11 de Julho!


Nada no terreno nos tranquilizava. Mas tínhamos notícias do empenho do MFA numa solução negociada com a Frelimo e do grande esforço que alguns dos nossos camaradas de Lisboa estavam finalmente a fazer.


Sentíamos necessidade de dar alguma esperança às tropas que se espalhavam por todo o território, e que começavam a estabelecer contactos com elementos da Frelimo, conseguindo acordar localmente a cessação das hostilidades. Essa situação, que em algumas situações incentivámos, não deixava de nos causar apreensão, em especial pela demora de uma confirmação oficial do progresso das negociações.Pensámos escrever uma carta às comissões regionais, de alerta e de esperança.- Eu escrevo um rascunho – prontificou-se o João.No mesmo dia, lida a proposta, foi a carta enviada a todos os camaradas. 


Rezava assim: 


«GABINETE DO MFA JUNTO DO COMANDO-CHEFE

Caros camaradas;

Temos que meditar profundamente no momento que estamos vivendo. Vai estando em causa todo um edifício que construímos com a nossa vida. Todas as nossas convicções, todas as certezas que eram alicerce e estrutura da nossa maneira de estar no mundo e de sentir a vida se vão desmantelando, correndo o risco de desmoronamento completo.Uma coisa é o impulso, outra, a meditação.


A ninguém restam dúvidas do caminho correcto e da urgência da partida. Tivéssemos nesta altura, cada um de nós, o poder de decisão e saberíamos, sem hesitações, seguir rapidamente ao encontro do objectivo que buscamos. Mas isso e uma hipótese. A realidade vivemo-la neste momento, e os cordéis que a conduzem não estão nas nossas mãos. Sem eliminar a possibilidade de podermos estender a mão. Considerando ainda os prós e os contras dessa atitude.

Restam-nos duas hipóteses. Ou acreditamos que se vai alcançar, nestas circunstâncias, uma vitória para a nossa causa e temos o dever de aguardarmos expectantes mas coesos, ansiosos mas disciplinados, ou não acreditamos e temos que assumir a nossa responsabilidade de guardiões do Programa do MFA, não com subterfúgios, com rodeios, com palavras ocas e desmoralizantes, com cobardias, com atitudes que poderão lançar as Forças Armadas no caos, no desprestígio, na indisciplina generalizada, mas com coragem, com hombridade, em uníssono, com a força que nos dá o povo que em nós confia. 

Portugal não espera das suas Forças Armadas uma derrocada. Espera uma solução digna. Se nos apercebemos de que a solução não está a ser procurada com todo o afinco, forcemos essa solução, mas jamais lançando os militares no caos de que nunca poderão levantar-se. Com a franca possibilidade de a sua queda ter sido em vão e negativa, pois a todos transmitimos a certeza de que tudo está em marcha para a solução por todos ansiada.
O MFA merece-nos confiança e sabemos que está profundamente empenhado na resolução do problema. E que vai consegui-lo. Se todos contribuirmos, se não deixarmos as Forças Armadas morrer.

"O MFA proclama e compromete-se a garantir".

11 JUL 74

Um abraço». 



- Esperemos que isto não seja em vão – alertou o João – esperemos que haja concordância entre este compromisso e o que está efectivamente a fazer-se a partir de Lisboa!


- Sem essa certeza, não poderíamos ter feito esta carta…



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