quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Para ver se entendem...



Já tinham sido ultrapassados todos os prazos. Já não sabíamos que mais explicar aos nossos camaradas de Lisboa. As negociações arrastavam-se, como se estivéssemos em posição de as prolongar. Restavam-nos dois caminhos – continuar a produzir documentos explicativos, que viessem a influenciar de algum modo a disposição dos poderes, e contrariar no terreno as orientações superiores, fechando os olhos à aproximação de soldados e combatentes, que por si iam resolvendo o problema do cessar-fogo.


Nos primeiros dias de Julho seguiu para Lisboa mais um alerta. Procurávamos explicar, de forma simples, a lógica da tomada do poder pela Frelimo, fosse qual fosse o rumo das negociações. Bastava estar atento às circunstâncias.Rezava assim:


“1. O MFA Moçambique considera que a análise e a avaliação das linhas de acção do problema ultramarino terão necessariamente que ser feitas realisticamente, tendo em conta os resultados a que previsivelmente possam conduzir.


2.            Assim admitindo que a Frelimo aceitasse a solução actualmente proposta pelo Governo provisório parece líquido prever que:
a.     O Governo eleito de Moçambique, desde que com um mínimo de legitimidade, não deixaria de desejar a independência.
b.     Imediatamente após a retirada das nossas tropas, a Frelimo, força política mais representativa e organizada e única com potencial e experiência de guerra, forçaria rapidamente a situação por forma a tomar conta do poder sem ter sequer assumido compromissos e responsabilidades de defesa de minorias e seus legítimos interesses.


3.            Admitindo que a Frelimo não aceita a solução haverá a considerar os seguintes casos:
a.     Se a solução de forças e moral das tropas em presença não se alterasse até à eleição da Assembleia na Metrópole e portanto a situação militar se mantivesse estável, tudo leva a crer que a referida Assembleia teria maioria partidária da cessação imediata das hostilidades e portanto da aceitação das condições da Frelimo, o que acabaria por traduzir dicotomia Forças Armadas/Povo e afastamento do ideário do MFA e portanto desprestígio das Forças Armadas.
b.     Se a relação de forças se continuar a alterar a nosso desfavor e o moral das nossas tropas continuar a baixar, especialmente devido à chegada de novas tropas da Metrópole, negativamente mentalizadas, haverá a considerar:
1)           A situação militar deteriorar-se até sermos forçados a negociar as condições da Frelimo sem possibilidades de pressionar condições de defesa dos interesses das minorias.
2)           A situação evoluir por forma a entrarem em acção factores e forças que nos transcendem, conduzindo a uma evolução imprevisível, podendo mesmo levar ao limiar de um confronto mundial.


4.            Nestas condições o MFA de Moçambique considera como análise realista os factores determinantes que parecem indicar:
a.     Evolução da situação através de qualquer linha de acção que conduzirá à entrega ou tomada do poder pela Frelimo ou confrontação de blocos com consequências que nos transcendem.
b.     A responsabilidade da evolução pertence ao MFA, que se garante dos objectivos de paz definidos no seu Programa.
c.      A melhor defesa dos interesses das minorias passará pela imediata aceitação e reconhecimento do direito à independência e reconhecimento da Frelimo como representante mais válido do povo de Moçambique.
d.     Manobras dilatórias no progresso das conversações serão inevitavelmente tomadas como produto de atitude neocolonialista e significam esbanjamento do único capital válido de que dispomos nas negociações e que o 25 de Abril valorizou de forma extraordinária no mercado internacional – ruptura com o passado colonialista e honestidade, sinceridade e coerência no desejo de paz expresso pelo programa do MFA”.
 


O João não podia deixar o documento sem o seu comentário:


- Embora alguns argumentos possam parecer exagerados e pouco a propósito, a lógica do processo estava à vista: a Frelimo sempre tomaria o poder, fossem quais fossem as circunstâncias. Logo, as negociações imediatas eram o único caminho que o MFA podia exigir. Nós tínhamos uma boa percepção da situação.


- Os dias a passar sem notícias concretas de progresso nas negociações deixavam-nos angustiados. Começávamos a ceder no apoio aos contactos que as nossas tropas estavam a estabelecer com os combatentes da Frelimo, sem que para isso tivessem recebidos qualquer autorização ou vissem necessidade de a obter.


- As circunstâncias iam ditando o caminho a seguir…



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