sexta-feira, 14 de março de 2014

O único caminho...


 Em meados de Junho, quase dois meses depois do 25 de Abril, ainda subsistiam muitas dúvidas sobre o caminho a seguir, em especial no Comando-Chefe de Moçambique.  Por mais que os militares do MFA, através das suas comissões, tentassem esclarecer o que estava em causa, a verdade é que se mantinham as incertezas sobre o rumo dos acontecimentos e nem todos interpretavam o Programa do MFA da mesma forma.


Mesmo entre elementos aparentemente esclarecidos, tanto do MFA como de órgãos importantes do Quartel-General, persistiam ideias pouco concordantes com as perspectivas abertas pelo 25 de Abril.  O problema colonial (do ultramar como preferiam) mantinha, para eles, praticamente as mesmas condicionantes que motivaram o 25 de Abril.  Não foi nada fácil fazer-lhes ver que estávamos na fase final de um longo processo de descolonização, e que o nosso capital consistia em fazermos um bom acordo de transferência do poder.


O comunicado nº 2 do Comando de Vila Pery e a respectiva tomada de posição da Comissão Regional do MFA dão uma ideia dos sentimentos que se cruzavam nestes dias vertiginosos, em direcção à única saída que sobrava às autoridades portuguesas – as conversações com a Frelimo.


Vejamos os textos.


“Comunicado nº 2 do Comando Militar de Vila Pery:


1.    As conversações de Lusaca com a Frelimo, com vista a uma paz próxima em Moçambique, foram adiadas possivelmente para fins deste mês.
2.    Na imprensa, o engenheiro Jorge jardim anunciou que dos dias 13 a 15 deste mês iria fazer salientar o seu nome através de acções espectaculares.
3.    Este comando tem conhecimento que forças de reacção (que não são da Frelimo), enquadradas por elementos armados, penetraram durante esta semana na área do distrito de Vila Pery com a missão de alterar a ordem, actuar no meio da população, especialmente operários.
4.    Esta possível actuação só vem prejudicar as negociações com a Frelimo e é atentatória do Programa do Movimento das Forças Armadas, que só entende uma solução política para bem de todos.
5.    As Forças Armadas, atentas a estas manobras que só prejudicam a população, apelam para a colaboração das autoridades, no sentido de serem detectados os agitadores, e informam que agirá, energicamente, na repressão a actos que perturbem a ordem pública.
 

Vila Pery, 12 de Julho de 1974”. 


Este comunicado causou algumas reacções, em especial no QG do Comando-Chefe, mas a Comissão Regional do MFA quis esclarecer completamente o sentido e o apoio ao comando de Vila Pery, em correspondência que enviou ao Gabinete e à Comissão Coordenadora do MFA, no dia 22 de Junho.  Dizia o seguinte:


“01. O Sector I (Vila Pery) difundiu no dia 12 o seu comunicado nº 2 em virtude de:


- ter surgido uns dias antes entre a população civil uma onda de boatos e de incitamento à greve na região,


- ter havido uma série de crimes em Vila Pery (três homicídios e vários assaltos à mão armada),


- parte da população branca ser francamente reacionária e racista,


- haver absoluta necessidade de as Forças Armadas se anteciparem aos acontecimentos de forma a poder controlá-los.


02. O referido comunicado suscitou diferentes reacções; assim:


- localmente foi bem recebido, porque deu à população a necessária confiança nas Forças Armadas, levando-a a colaborar nas medidas de vigilância tomadas,


- ao que se julga, em Lourenço Marques, na Beira e em Nampula provocou críticas, o que levou o QG do Comando-Chefe a pedir diversos esclarecimentos ao Sector I.


03. Em face do acontecido, a Comissão Regional do MFA de Vila Pery esclarece que:


- O comunicado teve e tem o completo apoio dos oficiais do Sector I,


- na região não houve qualquer incidente contrariamente ao que aconteceu noutras cidades de Moçambique,


- a população da região aceitou com agrado o comunicado, à excepção de alguns amigos do Engº. Jardim, que não concordaram com a referência ao seu nome,


- o comunicado foi oportuno e teve plena justificação face ao ambiente que se estava a gerar na região,


- o comando do Sector I revelou ter um conhecimento adequado da situação dentro da sua área de responsabilidade e possuir a capacidade de decisão necessária,


- lamenta-se que em determinados sectores do QG continue a haver um espírito reacionário dificultando assim as necessárias tomadas de atitudes e de decisões por parte dos escalões subordinados, a quem não pode ser minada a sua coragem moral no momento crítico que todos nós vivemos em Moçambique”. 



- Ou seja – acrescentava o João – continua a haver quem não compreenda o que está em causa, mesmo entre os mais responsáveis, e isso pode conduzir-nos a uma situação sem saída, se não continuarmos, com o apoio das comissões regionais, a lutar por uma rápida resolução do problema que temos entre mãos.


- E não se espere que outros o resolvam por nós. Temos também de saber que já não estamos sozinhos neste processo (veja-se o exemplo do Comando de Vila Pery), mas que devemos assumir as nossas responsabilidades.


- Espero que não venham a atribuir-nos a responsabilidade por tudo o que se está passando e vai passar, que essa é nossa e de mais ninguém, mas também de tudo o que ficou para trás, incluindo a situação que existia a 25 de Abril!